terça-feira, 29 de abril de 2014

NUDISMO/NATURISMO NA MÁQUINA DO TEMPO





A Máquina do Tempo é o nome do 6º livro de Anaximandro Amorim lançado no dia 24/04/14 no Café com Letras, e não poderia deixar de prestar a minha homenagem ao amigo que sempre esteve presente, ou representado pelos seus pais, dando apoio a outros escritores e participando também com seus dons artísticos cantando maravilhosamente para todos.

O autor é membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras e da Academia de Letras e Artes da Serra. Também é membro da Academia Espirito-Santense de Letras e da Academia de Letras Humberto de Campos de Vila Velha-ES. Trata-se de diversas crônicas de sua autoria publicadas em seu blog e no Jornal da cidade. A leitura do livro me fez também relembrar algumas passagens na minha vida entre elas cito: No “13 de Julho, dia Mundial do Rock’n’Roll” que diferente de Anaximandro, fui músico e tinha um conjunto musical e péssimo cantor, minha frustração! E no “Meu primeiro carro” que o dele foi um Escort e não consigo esquecer o meu Chevette. Em “A Máquina do Tempo” não pude deixar de relembrar a IBM 82-C que tinha uma coleção de esferas para ter letras diferentes, bom essa era a moderna, tinha também uma Remington daquelas bem...deixa prá lá, não existe mais, exceto em museus.

Para meu espanto, logo que vi a crônica “O direito de envelhecer” não pude resistir em fazer um breve comentário, o que também me fez lembrar do artigo escrito pelo Laércio Júlio da Silva em 01/08/2009 ‘A Beleza que ameaça a juventude”. Ambos mostrando uma ilusão que torna o indivíduo prisioneiro de um sistema que privilegia a estética. Cita ele: Vivemos cercados por uma patrulha velada, a da chamada “ditadura da beleza”. Ela é pior que qualquer caudilho pois consegue estar, eficazmente, em todos os lugares, nos apelos comerciais, nas tevês e nas revistas. É um padrão praticamente inalcançável, que está fabricando uma massa de infelizes.

No meu pronunciamento diante de muitos poetas e escritores citei também a importância da pele humana fazendo referência ao livro “Tocar –O Significado Humano da Pele” de Ashley Montagu em que diz: É até certo ponto espantoso que aquele depósito de parcela tão significativa do espírito humano sensível – a saber, a poesia -, da qual seria possível esperar um profundo e sofisticado entendimento das funções da pele humana, se mostre tão desapontadoramente estéril. Foram escritos poemas para celebrar praticamente todas as partes do corpo, mas a pele, inexplicavelmente, parece ter sido negligenciada, como se não existisse. John Horder, poeta e escritor inglês, comentou esse ponto. Num artigo intitulado “Hugging Humans” (Humanos Abraçando) ele se queixa do fato de muitos dos mais prezados poetas ingleses permanecerem encapsulados em seus intelectos, mantendo com alta frequencia um relacionamento muito precário com seu corpo físico.
Ficou assim a minha sugestão aos intelectuais para que também atentassem que a pele que nos cobre pode muito bem ser motivo para a poesia.

Lembrei não publicamente do livro de Maciel de Aguiar em “Nós, Os Capixabas”, descrevendo a biografia de muitos nomes que fizeram a sua história, entre eles a Luz Del Fuego (Madrinha do Naturismo Brasileiro). Escreve ele que no auge da fama ela disse que “Só cinqüenta anos depois de morta serei lembrada em meu Estado natal”. Faltando poucos anos para confirmação ou não de sua profecia, em Cachoeiro de Itapemirim ainda não existe sequer uma rua com seu nome e muito menos já lhe prestaram homenagem. Após mais de quatro décadas de seu encantamento, que consternou o País, alguns cidadãos da “capital secreta do mundo” também foram esquecidos, embora outros tenham sido homenageados por merecimento.

Continua ele: Possivelmente, no Estado do Espírito Santo, cinqüenta anos não devam ser mesmo um tempo suficiente para se expurgar os resquícios do rancor, da ingratidão e do preconceito contra uma das mulheres mais corajosas e destemidas de seu tempo. Porém bem que sua memória merecia um ato de atrevimento de um cachoeirense justo, solidário e generoso. Deveria ser afixada, no local mais visível da cidade, a seguinte frase: “Aqui nasceu Luz Del Fuego, a luz que iluminou a alma libertária do Brasil e encantou o mundo”.

Obrigado Anaximandro, a sua máquina me permitiu viajar no tempo e de reconhecer que a verdadeira máquina são as nossas lembranças e o reconhecimento daqueles que antes foram desbravadores. Para a nova geração uma lenda, para mim uma eterna gratidão.


Evandro Telles
29/04/14



quarta-feira, 2 de abril de 2014

NUDISMO/NATURISMO - UMA MISSÃO IMPOSSÍVEL




Missão impossível é um filme dos Estados Unidos dirigido por Brian de Palma, com Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart e outros. Parece-me que a missão não foi tão impossível assim, já que no final ela foi cumprida.

Mas não é sobre o filme que quero tecer comentários e sim dizer que a filosofia nudista/naturista jamais conseguirá modificar as inversões de valores sociais. Viegas Fernandes da Costa em seu artigo “Sobre a Nudez Social” fez o seguinte relato: Ao iniciar estas breves reflexões a respeito da minha experiência com a nudez social, ocorre-me à lembrança uma matéria da revista Veja do final da década de 1990, que tratava da guerra civil na Libéria. Chamou-me especial atenção uma fotografia que exibia o cadáver de um homem nu que havia sido linchado pelos guerrilheiros e abandonado à rua. Podia-se ver todo o corpo, suas feridas, a expressão de dor na face inerte e as lanhuras nos braços e pernas. Sobre o pênis, entretanto, uma espécie de tarja. Fiquei me perguntando o que seria mais obsceno: se a guerra civil e toda sorte de dor e destruição que esta provoca, onde cadáveres humanos são abandonados insepultos em meio à população que desesperadamente tenta sobreviver; ou se a exposição de um pênis aos olhos de leitores pudicos que poderiam se escandalizar, dando uma conotação sexual doentia a uma parte de um corpo humano barbaramente torturado e morto. Encaramos com naturalidade a guerra, o genocídio, a desestruturação social e a tortura, mas a nudez que nos cobre desde nosso nascimento é desnaturalizada ao ponto de um pênis supostamente chocar mais que a própria barbárie da guerra. Há aqui, certamente, uma inversão de valores sobre a qual devemos nos questionar e incomodar.

No entanto existem inversões mais sutis, de modo despercebido pela maioria das pessoas do nosso convívio, do tipo: “Coloque pelo menos uma cuequinha, fica mais bonitinho”. Por que tal afirmativa é uma inversão de valores? Tentarei esclarecer em poucas linhas já que longas explicações jamais serão lidas.

Não existe senão um único templo no Universo, e é o Corpo do Homem.
              Nada é mais sagrado do que esta elevada forma.

Curvar-se diante do homem é um ato de reverência feito diante desta
        Revelação da Carne. Tocamos o céu quando colocamos nossas mãos num
                corpo humano.

Novalis (pseudônimo de autor de Frederich Von Hardenberg, 1772. Citado em Miscellaneous Essays, vol II, de Thomas Carlyle).
  
Tanto a pele quanto o sistema nervoso originam-se da mais externa das três camadas de células embrionárias, a ectoderme, logo, o sistema nervoso é uma parte escondida da pele ou, ao contrário, a pele pode ser considerada como a porção exposta do sistema nervoso (1). Isto é muito significativo uma vez que a pele possuindo uma conexão com o sistema nervoso central ou interno, é também responsável pelas nossas percepções do mundo externo em que vivemos.

Muitos estudos têm sido feitos a partir da década de 70 com resultados surpreendentes e admiráveis com funções variadas: a) base dos receptores sensoriais; b) mediadora de sensações; c) barreira contra materiais tóxicos; d) responsável por um papel de destaque na regulação da pressão e do fluxo de sangue; e) órgão implicado no metabolismo e armazenamento de gordura são alguns poucos exemplos que cito. Até mesmo o autor do livro “Tocar” Ashley Montagu fica intrigado dos motivos da poesia se mostre tão desapontadamente estéril. Diz ele:

Foram escritos poemas para celebrar praticamente todas as partes do corpo, mas a pele, inexplicavelmente, parece ter sido negligenciada, como se não existisse. Num artigo intitulado “Hugging Humans” (Humanos Abraçando) ele se queixa do fato de muitos dos mais prezados poetas ingleses permanecerem encapsulados em seus intelectos, mantendo com alta freqüência um relacionamento muito precário com o seu corpo físico.

Para sentir a beleza de todo o corpo humano, é fundamental entender com o que estamos lidando, com uma fronteira cujo funcionamento ainda não totalmente explicável em nossas pesquisas científicas. E se mesmo assim uma simples “cuequinha” for mais bonita que a pele que nos cobre só mesmo chamando Tom Cruise para mais uma missão impossível de resgate, só que não será de uma pessoa e sim da própria identidade de todos nós.

(1)   Ashley Montagu; Tocar

Evandro Telles
03/04/14



sexta-feira, 14 de março de 2014

NUDISMO/NATURISMO - UM PASSO PARA A AUTOACEITAÇÃO




Muitas pessoas as quais convido para conhecer mais de perto o Naturismo me dizem que primeiro teriam que emagrecer e tornar seus corpos esbeltos, mas isso nunca acontece, seja como for, não se aceitam do jeito que elas são, estão sempre se comparando com alguém. Fatalmente é uma perseguição ilusória, uma desculpa para esconder suas frustrações.

Uma pesquisa realizada pela organização sem fins lucrativos Action of Happiness – em colaboração com a Do Something Different – desafiou 5 mil pessoas a fazerem um ranking de 1 a 10 com os hábitos que mais consideravam “chaves para a felicidade”. Todos os 10 hábitos colocados como opções desta pesquisa estavam estreitamente relacionados com a satisfação geral das pessoas com a vida. Mas, segundo os cientistas, a “autoaceitação” é o fator mais fortemente ligado a esse sentimento. E que, curiosamente, foi o hábito menos relacionado entre os entrevistados, revelando que é algo que as pessoas praticam muito pouco ou quase nada. Por quê? Porque o nosso maior hábito de todos é procurar a felicidade do lado de fora quando, na verdade, ela está dentro de nós mesmos. (1)

Para a professora Karen Pine, psicóloga da Universidade de Hertfordshire e cofundadora da Do Something Different, a pesquisa mostra é que praticar a autoaceitação é o que mais pode fazer diferença no nível de felicidade de uma pessoa. Segundo o Dr. Mark Williamson, diretor da Action of Happiness, “nossa sociedade coloca uma enorme pressão sobre nós para sermos bem sucedidos e nos compararmos constantemente com os outros. E isso causa uma grande quantidade de infelicidade e ansiedade”. (1)

Essa semana uma integrante do Grupo Naturismo Capixaba me informou que irá fazer um depoimento num jornal local (Vitória-ES) relatando como o Nudismo/Naturismo a tirou do seu estado depressivo. Não é incomum acontecer tal transformação, Viegas Fernandes da Costa em seu artigo “Sobre a Nudez Social” cita: “Assim, ao despir-me, na Praia do Pinho, reconheci a “graça” em mim, o “cuidado de si” não para atender às necessidades estéticas do outro, mas para a minha conciliação comigo mesmo, em um processo de reconhecimento da minha integralidade.”

O praticante do Nudismo/Naturismo encontra-se a um passo para sua autoaceitação na medida em que se tem o reconhecimento que as diferenças corporais constitui na impossibilidade da existência de um padrão a ser seguido. Marcelo Gleiser em seu livro “Criação Imperfeita” faz a observação de que deveríamos ter outra noção de beleza a partir das nossas imperfeições, pois “são essas diferenças que tornam a vida interessante. A mensagem que a física de partículas e a cosmologia moderna nos ensinam é clara. Somos produtos de imperfeições da Natureza”. (2) (3)

Na natureza um casulo quando se rompe sai a mariposa. Com o homem parece ocorrer justamente ao contrário, ele nasce uma mariposa e logo entra no casulo, é enjaulado e aprisionado, seu ser espontâneo sofre, e não pode sair disso. Por isso há tanta patologia. (4) As dificuldades de deixar o corpo livre por causa dos seus condicionamentos sociais tornam-se também problemas psíquicos e não é difícil encontrar psicólogos consultando com outros psicólogos, não é estranho isso?

Mas a vida é mesmo estranha. Aqui às vezes os reis são mendigos e os mendigos são reis. Não se deixe enganar pelas aparências. Olhe para dentro. O coração é rico quando palpita com alegria, o coração é rico quando está em harmonia com a natureza, com a lei fundamental da vida. O coração é rico quando você está em harmonia com o todo; essa é a única riqueza que existe. Do contrário, um dia você vai chorar e dizer: “É tarde demais...” (4)

Essa integralidade com a natureza há muito vem sido defendida pelos nudistas/naturistas como uma porta para a autoaceitação, um meio de realizar uma cisão de que a felicidade depende de um corpo perfeito. Infelizmente mal compreendidos pela sociedade e não é por acaso que somos minorias.


(2)   Marcelo Gleiser; Criação Imperfeita
(3)   Dr. Amit Goswami; O Médico Quântico
(4)   Osho; Fama, Fortuna e Ambição


Evandro Telles



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O NUDISMO E A PSICOLOGIA



Psicologia é uma ciência que estuda o comportamento humano e animal e os processos mentais (razão, sentimentos, pensamentos, atitudes). O corpo e a mente são estudados pela psicologia de forma integrada e não separadamente.

O Nudismo deve ser incorporado no estudo da Psicologia porque antes de tudo é também mental e não somente corpo despido. O sufixo “ismo” na palavra já tem o significado de uma doutrina, e a Psicologia poderia contribuir para o entendimento a respeito da nudez humana e as implicações psíquicas no indivíduo em que realiza transformações.

Como se processa essas transformações e como é o novo modo de vida após sentir a liberdade do corpo? Um estilo de vida que se opõe radicalmente ao outro não provocaria choques de identidades? Como seria viver naturalmente e autêntico com o próprio corpo se no meio social em que vivemos ainda não se consegue compreender que o Nudismo é ser livre dos disfarces?

Na dissertação de Mestrado na área de Antropologia de João Paulo Cordeiro Reis cita ele: “As mudanças que se operariam no nível psicológico possuem relação direta com a exposição pública da nudez. A evidência do corpo nu tende a ser percebida como um ato de coragem e aceitação de si, como prova definitiva da superação de um trauma gerado ainda na infância, mas que teria sido ultrapassado a partir de um gesto considerado excessivamente problemático no contexto ocidental. Ao despir-se, o naturista estaria rompendo com uma “cultura da vergonha”, criada para torná-lo medroso e submisso.”

Se a Psicologia tenta explicar o homem, podemos então afirmar que ela também evolui na proporção em que a ciência começa a realizar novas descobertas acerca da nossa natureza. A Física Quântica começa a proporcionar diversas especulações sobre a nossa constituição física e psíquica, a “Psicologia, até então lógica e pragmática, mesmo com sua inerente subjetividade, deverá considerar novas postulações de acordo com as considerações e paradigmas quânticos” (Psicologia e Universo Quântico de Adenáuer Novaes).

As perguntas são: Como a Psicologia irá explicar o psíquico sem considerar as constituições físicas? Será que os próprios psicólogos e estudantes da área estão livres corporalmente a ponto de ter o entendimento mais preciso do psiquismo?  Voltando à monografia acima citada ele faz referência às máscaras sociais:

De acordo com os naturistas, a civilização teria corrompido o caráter do ser humano, tornando-o egoísta e distante dos valores coletivos. De um estado original de pureza, ele teria sido levado à desconfiança e à malícia, tornando-se individualista e competitivo.

Sua nudez, compreendida como a marca da pureza original, teria dado lugar à falsidade das roupas e das máscaras sociais, que teriam a função de ocultar a verdadeira natureza das pessoas, criando múltiplos disfarces no contexto de uma sociedade marcada pela desigualdade.

É diante desse quadro que o naturismo tende a ser considerado como uma via de acesso a um mundo mais igualitário e fraterno, no qual o respeito pelo ser humano seria considerado um valor central. Contrapondo-se ao universo individualista e materialista das “sociedades têxteis”, os naturistas buscariam inventar modelos diferenciados de percepção e conduta, estabelecendo distinções marcadas entre o “nu” e o “vestido”.

No final do ano passado realizei uma palestra para alunos da Faculdade de Psicologia e até hoje nenhum mostrou interesse em realizar seus trabalhos de conclusão de curso quando o assunto é “Nudismo/Naturismo”.  Será que os nossos jovens não entendem que o corpo tem a sua beleza e sabedoria? O movimento Nudista tem muito para ensinar, mas é preciso querer aprender.



Evandro Telles
27/02/14



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

NATURISMO E O TOPLESSAÇO





Será que podemos dizer que a nudez da arte do fotógrafo Spencer Tunick tenha algo a ver com o movimento nudista/naturista? E o topless? Termo originado do inglês que significa literalmente “sem a parte de cima” designando a situação na qual a mulher fica com os seios à mostra e não está vestindo nada da cintura para cima.  No final do mês de dezembro foi marcada pela internet uma manifestação chamada “toplessaço” onde, segundo informações das organizadoras tinham 4000 adesões. Compareceu meia dúzia.

Pelas fotos apresentadas nos meios de comunicação, não reconheci nenhuma das pessoas que fossem praticantes do Nudismo/Naturismo, pelo menos nunca fui procurado por elas para participarem do Grupo ao qual sou dirigente, nem mesmo para entenderem as propostas defendidas pelo estilo de vida nudista/naturista.

O “Toplessaço” surgiu de um incômodo da repressão ao corpo feminino. Inaceitável que o seio à mostra seja um caso de polícia. Ótimo, não estou contra essa manifestação, mas daí associar com o Nudismo/Naturismo é algo muito distante. O que elas reivindicam, há muitos anos (desde 1900) a filosofia nudista/naturista incorpora em seus contextos de forma muito mais abrangente, e ainda assim não compreendida. A Dissertação de Mestrado de João Paulo Cordeiro Reis apresentada na Universidade do Rio de Janeiro em 2008 diz ele:

Mais do que uma prática de lazer, portanto, o naturismo insere-se num movimento de crítica da cultura moderna, investindo na construção de novos valores e percepções sobre os seres humanos e sobre o mundo. Inspirados num imaginário sobre o indígena como um ser perfeitamente integrado à natureza e ao convívio social, os naturistas articulam diferentes elementos na construção de um ideal de vida e plenitude. À indiferença das relações entre as pessoas, ao hedonismo fútil da sociedade de consumo, à cultura da vergonha e da culpabilidade exaltam-se valores como o respeito mútuo, a aceitação da diferença, a fraternidade partilhada e a aceitação do corpo e de si.

Encarada pelos naturistas como um dos principais tabus das sociedades ocidentais, a nudez coletiva é percebida como uma prática dotada de significados sociais específicos, cuja principal característica seria o seu caráter transformador em relação ao indivíduo e ao grupo. Para os naturistas, a nudez coletiva pode ser percebida como um operador material e simbólico, modificando percepções, concepções e condutas sociais.

Esses argumentos de João Paulo explicam o motivo da falta da presença do Nudista/Naturista no “Toplessaço”. Não interessa ser vitrine para pessoas desprovidas da Cultura ao Corpo Livre (FKK sigla na língua Alemã), e desconhecedores das formas do corpo feminino. Daí surge a significativa diferença entre o que é pretendido pelos nudistas/naturistas do que é defendido pelo “toplessaço”. De maneira alguma estamos interessados na aprovação do outro do nosso corpo em função dos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade, estamos sim em busca na nossa própria aceitação como indivíduos imperfeitos, únicos, diferentes na aparência e iguais na essência. O “toplessaçõ” busca a aceitação dos que estão de fora, o nudista/naturista faz uma viagem para dentro de si mesmo.

Tal como o poeta que às vezes ainda meio acordado e meio dormindo na madrugada escreve a poesia no seu silêncio, deixa manifestar a sua fluidez segundo a sua própria natureza; assim os nudistas/naturistas sem se importar com seus defeitos físicos entregam seu corpo à própria natureza. Nunca busquei aceitação do que escrevo de A, B ou C se isso acontecesse perderia o meu silêncio, a minha identidade e estaria negando os meus valores. Assim, os nudistas/naturistas meio parecidos com os poetas, simplesmente deixa fluir. A nudez do Nudismo/Naturismo é fluídica e não por imposição, nem pode ser de outra forma já que semelhante a natureza, nada é estático, tudo muda continuamente.

Mesmo que o “Toplessaço” não tenha tido uma presença significativa, mas mostrou que muitas mulheres tiveram vontade de participar e ficaram temerosas de se exporem, o que também é compreensível. Representa uma atitude louvável, provocando reflexões e põe o dedo na ferida: Se a sociedade não se incomoda com as agressões nos ringues, nos campos de futebol e nos noticiários sobre a violência, por que cria um problema quando o corpo está exposto se a ninguém agride? O nome para isso é “hipocrisia”, coisa que já estamos bastante acostumados a ver, parece tão difícil olhar o corpo humano com naturalidade nos dias atuais! Algo para ser pensado.




Evandro Telles
14/01/14



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

LIBERTE-SE PARA O NATURISMO


Como diz na música “Uma Noite e Meia” de Renato Rocketh, cantada por Marina Lima: “Vem chegando o verão, um calor no coração, essa magia colorida, coisas da vida”. Cada estação possui a sua magia, mas o verão parece mais propício para desnudar o corpo e nele sentir as energias da natureza, é algo que não poderá ser falado porque cada pessoa poderá sentir de forma diferente. Lamentavelmente nesse país tropical, cujos primeiros habitantes já andavam nus, a prática do Naturismo/Nudismo como agente de integração entre mente-corpo ainda é desconhecida. Algumas pessoas me dizem que nunca serão naturista/nudista, não entendem que dito dessa forma reflete um lado psicológico negativo do próprio corpo e consequentemente diante da vida. A civilização adestra o indivíduo a viver na irrealidade e ele assume como se fosse real, ele sonha e quando acorda ainda sente os reflexos daquilo que sonhou. Esse lado negativo não deixa aberturas para mudanças e evolução, assume uma postura intransigente, às vezes até arrogante diante da sua natureza. O conflito entre social x natural não irá cessar nunca. O mais correto seria dizer: “Não sou naturista/nudista, mas quem sabe algum dia!” Pelo menos abre-se uma porta para fazer avaliações, estudar o assunto, realizar reflexões sobre si mesmo diante do universo. O historiador Viegas Fernandes da Costa ao escrever sobre a sua experiência com a nudez social no artigo “Sobre a Nudez Social” coloca o dedo na ferida de uma sociedade que recrimina o corpo e continua procedendo assim com o aval daqueles que ainda não compreenderam o que representa o movimento naturista/nudista no mundo. Cita ele: “Sabemos, portanto, do quão transgressor pode se caracterizar o gesto de tirar a roupa e conviver socialmente sem esta. Insisto lembrar que o caráter transgressor da nudez está relacionado com o contexto social em que se insere, em nosso caso, a sociedade têxtil. A transgressão e ousadia do ato parece ainda maior quando se trata de corpos que a sociedade classificou como “defeituosos ou deficientes”. Ou seja, que por alguma característica que manifesta, afasta-se da imagem que temos de um corpo normal, construída em nosso imaginário. Digo isso de experiência própria, já que carrego em meu corpo as marcas de uma doença neuromuscular que me atrofiou os membros inferiores e superiores, e provocou “deformidades” em minha coluna e tórax”. A prática do Naturismo/Nudismo é provocativa na medida em que passamos também a refletir a inclusão do próprio corpo na natureza, aí começamos a pensar sobre o meio-ambiente, sobre os valores sociais e sobre muitos outros assuntos. Desenvolvemos a percepção de como a sociedade é neurótica! A dúvida que ainda carrego é que os psicólogos ainda tentam ajustar o indivíduo a essa sociedade. Penso que esse ajuste só poderá ser feito em parceria com uma filosofia, e o Naturismo/Nudismo pode ser uma proposta muito interessante. Vou aguardar uma resposta da amiga e professora de Psicologia Maria Rita que me permitiu um espaço para realizar uma palestra para seus alunos. Naturismo/Nudismo é uma proposta de uma vida diferente, um olhar com naturalidade e de se sentir livre. Liberdade essa que também nos torna responsáveis porque estamos passando para futuras gerações uma nova perspectiva que inclui o respeito e harmonia mesmo com as nossas diferenças. Os conceitos que temos da natureza humana são verdadeiramente insignificantes e totalmente distorcidos, a ciência por meio da Física Quântica atesta isso, o físico alemão Werner Heisenberg em 1927 propôs o Princípio da Incerteza. Experimentar o Naturismo/Nudismo até mesmo para fazer uma reavaliação do próprio psiquismo, amplia as possibilidades de entendimento de como enxergamos o mundo material. É um mergulho não só nas águas do mar, mas também para dentro de si mesmo. Tente, experimente, liberte-se. Evandro Telles 19/11/13 www.evandrotelles.blogspot.com

terça-feira, 29 de outubro de 2013

SOU NUDISTA, ALGUM PROBLEMA?



Como é de conhecimento de muitos, o Nudismo nasceu na Alemanha por volta do ano de 1900, o professor alemão Adolf Koch inicia seus alunos nos desportos ao ar livre, bom isso não é segredo para ninguém, é história documentada.

Algumas federações até preservam em seus nomes a palavra “nudismo”, entre elas podemos citar ANF Australian Nudist Federation, NZNF New Zeland Nudist Federation, e até um dos maiores acervos da preservação da memória do movimento está localizada na Flórida, Estados Unidos chama-se American Nudist Research Library.

Tenho em minhas mãos livros de diversos autores entre eles cito: “Nudismo Y Naturismo” de Fernando Cabal, edição espanhola; Storia Del Nudismo de Jean Pascal Marcacci, edição italiana e outros. Nenhum deles faz menção depreciativa com relação à palavra “Nudismo”. Interessante que no país dos índios é que “toda nudez será castigada”!

Qualquer coisa que se relacione com a nudez humana a sociedade tenta criar um estigma, seja por humilhação, condenação ou culpa, não importa o nome que se dê à nudez, ela é sempre vista com olhar crítico por uma sociedade que tem medo da liberdade. Associar o nome Nudismo como se fosse algo irresponsável, inconseqüente, sem fundamentos que impliquem bem-estar psíquico, corporal e ambiental é, no mínimo, por falta de conhecimento das suas origens.

Nudismo é a consciência da própria nudez, os índios não praticavam o Nudismo, a nudez deles já era natural, não precisavam desse artifício para entrar na natureza e conversar com as árvores.

Na carta escrita em 1855 pelo chefe Seattle menciona: “Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumosas são nossas irmãs; os gamos, os cavalos, a majestosa águia, todos são nossos irmãos. Os picos rochosos, a fragrância dos bosques, a energia vital do pônei e o homem, tudo pertence a uma só família.” Definitivamente não precisava de artifícios para entender a unicidade da vida e da interdependência de todos que por aqui habitam.

A nudez pode favorecer reflexões sobre o corpo no universo, pensar de uma forma profunda e positiva sobre si mesmo sem necessitar de títulos. São as minhas ações e atitudes que poderão me definir, e mesmo assim imprimir uma definição equivocada por causa da amplitude da nossa natureza.

Freud disse que todo homem nasce neurótico. Isto é uma meia verdade, o homem na verdade nasce em uma humanidade neurótica. O homem nasce natural, real, normal, mas no momento em que o recém-nascido se volta parte da sociedade, a neurose começa a funcionar. A neurose básica é que ele sente e pensa e se identifica com a parte que pensa, e sentir é mais real que pensar, sentir é mais natural que pensar. Nascemos com o coração que sente, mas o pensamento foi cultivado; é dado pela sociedade.

Minha nudez não faz parte do pensar, nem quero saber o que pensam a meu respeito, só quero sentir o ar, o sol, a água e a terra. Os conceitos são puramente mentais, vou dispensá-los. Sim, sou nudista, algum problema?

Evandro Telles
29/10/13