terça-feira, 14 de janeiro de 2014

NATURISMO E O TOPLESSAÇO





Será que podemos dizer que a nudez da arte do fotógrafo Spencer Tunick tenha algo a ver com o movimento nudista/naturista? E o topless? Termo originado do inglês que significa literalmente “sem a parte de cima” designando a situação na qual a mulher fica com os seios à mostra e não está vestindo nada da cintura para cima.  No final do mês de dezembro foi marcada pela internet uma manifestação chamada “toplessaço” onde, segundo informações das organizadoras tinham 4000 adesões. Compareceu meia dúzia.

Pelas fotos apresentadas nos meios de comunicação, não reconheci nenhuma das pessoas que fossem praticantes do Nudismo/Naturismo, pelo menos nunca fui procurado por elas para participarem do Grupo ao qual sou dirigente, nem mesmo para entenderem as propostas defendidas pelo estilo de vida nudista/naturista.

O “Toplessaço” surgiu de um incômodo da repressão ao corpo feminino. Inaceitável que o seio à mostra seja um caso de polícia. Ótimo, não estou contra essa manifestação, mas daí associar com o Nudismo/Naturismo é algo muito distante. O que elas reivindicam, há muitos anos (desde 1900) a filosofia nudista/naturista incorpora em seus contextos de forma muito mais abrangente, e ainda assim não compreendida. A Dissertação de Mestrado de João Paulo Cordeiro Reis apresentada na Universidade do Rio de Janeiro em 2008 diz ele:

Mais do que uma prática de lazer, portanto, o naturismo insere-se num movimento de crítica da cultura moderna, investindo na construção de novos valores e percepções sobre os seres humanos e sobre o mundo. Inspirados num imaginário sobre o indígena como um ser perfeitamente integrado à natureza e ao convívio social, os naturistas articulam diferentes elementos na construção de um ideal de vida e plenitude. À indiferença das relações entre as pessoas, ao hedonismo fútil da sociedade de consumo, à cultura da vergonha e da culpabilidade exaltam-se valores como o respeito mútuo, a aceitação da diferença, a fraternidade partilhada e a aceitação do corpo e de si.

Encarada pelos naturistas como um dos principais tabus das sociedades ocidentais, a nudez coletiva é percebida como uma prática dotada de significados sociais específicos, cuja principal característica seria o seu caráter transformador em relação ao indivíduo e ao grupo. Para os naturistas, a nudez coletiva pode ser percebida como um operador material e simbólico, modificando percepções, concepções e condutas sociais.

Esses argumentos de João Paulo explicam o motivo da falta da presença do Nudista/Naturista no “Toplessaço”. Não interessa ser vitrine para pessoas desprovidas da Cultura ao Corpo Livre (FKK sigla na língua Alemã), e desconhecedores das formas do corpo feminino. Daí surge a significativa diferença entre o que é pretendido pelos nudistas/naturistas do que é defendido pelo “toplessaço”. De maneira alguma estamos interessados na aprovação do outro do nosso corpo em função dos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade, estamos sim em busca na nossa própria aceitação como indivíduos imperfeitos, únicos, diferentes na aparência e iguais na essência. O “toplessaçõ” busca a aceitação dos que estão de fora, o nudista/naturista faz uma viagem para dentro de si mesmo.

Tal como o poeta que às vezes ainda meio acordado e meio dormindo na madrugada escreve a poesia no seu silêncio, deixa manifestar a sua fluidez segundo a sua própria natureza; assim os nudistas/naturistas sem se importar com seus defeitos físicos entregam seu corpo à própria natureza. Nunca busquei aceitação do que escrevo de A, B ou C se isso acontecesse perderia o meu silêncio, a minha identidade e estaria negando os meus valores. Assim, os nudistas/naturistas meio parecidos com os poetas, simplesmente deixa fluir. A nudez do Nudismo/Naturismo é fluídica e não por imposição, nem pode ser de outra forma já que semelhante a natureza, nada é estático, tudo muda continuamente.

Mesmo que o “Toplessaço” não tenha tido uma presença significativa, mas mostrou que muitas mulheres tiveram vontade de participar e ficaram temerosas de se exporem, o que também é compreensível. Representa uma atitude louvável, provocando reflexões e põe o dedo na ferida: Se a sociedade não se incomoda com as agressões nos ringues, nos campos de futebol e nos noticiários sobre a violência, por que cria um problema quando o corpo está exposto se a ninguém agride? O nome para isso é “hipocrisia”, coisa que já estamos bastante acostumados a ver, parece tão difícil olhar o corpo humano com naturalidade nos dias atuais! Algo para ser pensado.




Evandro Telles
14/01/14



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

LIBERTE-SE PARA O NATURISMO


Como diz na música “Uma Noite e Meia” de Renato Rocketh, cantada por Marina Lima: “Vem chegando o verão, um calor no coração, essa magia colorida, coisas da vida”. Cada estação possui a sua magia, mas o verão parece mais propício para desnudar o corpo e nele sentir as energias da natureza, é algo que não poderá ser falado porque cada pessoa poderá sentir de forma diferente. Lamentavelmente nesse país tropical, cujos primeiros habitantes já andavam nus, a prática do Naturismo/Nudismo como agente de integração entre mente-corpo ainda é desconhecida. Algumas pessoas me dizem que nunca serão naturista/nudista, não entendem que dito dessa forma reflete um lado psicológico negativo do próprio corpo e consequentemente diante da vida. A civilização adestra o indivíduo a viver na irrealidade e ele assume como se fosse real, ele sonha e quando acorda ainda sente os reflexos daquilo que sonhou. Esse lado negativo não deixa aberturas para mudanças e evolução, assume uma postura intransigente, às vezes até arrogante diante da sua natureza. O conflito entre social x natural não irá cessar nunca. O mais correto seria dizer: “Não sou naturista/nudista, mas quem sabe algum dia!” Pelo menos abre-se uma porta para fazer avaliações, estudar o assunto, realizar reflexões sobre si mesmo diante do universo. O historiador Viegas Fernandes da Costa ao escrever sobre a sua experiência com a nudez social no artigo “Sobre a Nudez Social” coloca o dedo na ferida de uma sociedade que recrimina o corpo e continua procedendo assim com o aval daqueles que ainda não compreenderam o que representa o movimento naturista/nudista no mundo. Cita ele: “Sabemos, portanto, do quão transgressor pode se caracterizar o gesto de tirar a roupa e conviver socialmente sem esta. Insisto lembrar que o caráter transgressor da nudez está relacionado com o contexto social em que se insere, em nosso caso, a sociedade têxtil. A transgressão e ousadia do ato parece ainda maior quando se trata de corpos que a sociedade classificou como “defeituosos ou deficientes”. Ou seja, que por alguma característica que manifesta, afasta-se da imagem que temos de um corpo normal, construída em nosso imaginário. Digo isso de experiência própria, já que carrego em meu corpo as marcas de uma doença neuromuscular que me atrofiou os membros inferiores e superiores, e provocou “deformidades” em minha coluna e tórax”. A prática do Naturismo/Nudismo é provocativa na medida em que passamos também a refletir a inclusão do próprio corpo na natureza, aí começamos a pensar sobre o meio-ambiente, sobre os valores sociais e sobre muitos outros assuntos. Desenvolvemos a percepção de como a sociedade é neurótica! A dúvida que ainda carrego é que os psicólogos ainda tentam ajustar o indivíduo a essa sociedade. Penso que esse ajuste só poderá ser feito em parceria com uma filosofia, e o Naturismo/Nudismo pode ser uma proposta muito interessante. Vou aguardar uma resposta da amiga e professora de Psicologia Maria Rita que me permitiu um espaço para realizar uma palestra para seus alunos. Naturismo/Nudismo é uma proposta de uma vida diferente, um olhar com naturalidade e de se sentir livre. Liberdade essa que também nos torna responsáveis porque estamos passando para futuras gerações uma nova perspectiva que inclui o respeito e harmonia mesmo com as nossas diferenças. Os conceitos que temos da natureza humana são verdadeiramente insignificantes e totalmente distorcidos, a ciência por meio da Física Quântica atesta isso, o físico alemão Werner Heisenberg em 1927 propôs o Princípio da Incerteza. Experimentar o Naturismo/Nudismo até mesmo para fazer uma reavaliação do próprio psiquismo, amplia as possibilidades de entendimento de como enxergamos o mundo material. É um mergulho não só nas águas do mar, mas também para dentro de si mesmo. Tente, experimente, liberte-se. Evandro Telles 19/11/13 www.evandrotelles.blogspot.com

terça-feira, 29 de outubro de 2013

SOU NUDISTA, ALGUM PROBLEMA?



Como é de conhecimento de muitos, o Nudismo nasceu na Alemanha por volta do ano de 1900, o professor alemão Adolf Koch inicia seus alunos nos desportos ao ar livre, bom isso não é segredo para ninguém, é história documentada.

Algumas federações até preservam em seus nomes a palavra “nudismo”, entre elas podemos citar ANF Australian Nudist Federation, NZNF New Zeland Nudist Federation, e até um dos maiores acervos da preservação da memória do movimento está localizada na Flórida, Estados Unidos chama-se American Nudist Research Library.

Tenho em minhas mãos livros de diversos autores entre eles cito: “Nudismo Y Naturismo” de Fernando Cabal, edição espanhola; Storia Del Nudismo de Jean Pascal Marcacci, edição italiana e outros. Nenhum deles faz menção depreciativa com relação à palavra “Nudismo”. Interessante que no país dos índios é que “toda nudez será castigada”!

Qualquer coisa que se relacione com a nudez humana a sociedade tenta criar um estigma, seja por humilhação, condenação ou culpa, não importa o nome que se dê à nudez, ela é sempre vista com olhar crítico por uma sociedade que tem medo da liberdade. Associar o nome Nudismo como se fosse algo irresponsável, inconseqüente, sem fundamentos que impliquem bem-estar psíquico, corporal e ambiental é, no mínimo, por falta de conhecimento das suas origens.

Nudismo é a consciência da própria nudez, os índios não praticavam o Nudismo, a nudez deles já era natural, não precisavam desse artifício para entrar na natureza e conversar com as árvores.

Na carta escrita em 1855 pelo chefe Seattle menciona: “Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumosas são nossas irmãs; os gamos, os cavalos, a majestosa águia, todos são nossos irmãos. Os picos rochosos, a fragrância dos bosques, a energia vital do pônei e o homem, tudo pertence a uma só família.” Definitivamente não precisava de artifícios para entender a unicidade da vida e da interdependência de todos que por aqui habitam.

A nudez pode favorecer reflexões sobre o corpo no universo, pensar de uma forma profunda e positiva sobre si mesmo sem necessitar de títulos. São as minhas ações e atitudes que poderão me definir, e mesmo assim imprimir uma definição equivocada por causa da amplitude da nossa natureza.

Freud disse que todo homem nasce neurótico. Isto é uma meia verdade, o homem na verdade nasce em uma humanidade neurótica. O homem nasce natural, real, normal, mas no momento em que o recém-nascido se volta parte da sociedade, a neurose começa a funcionar. A neurose básica é que ele sente e pensa e se identifica com a parte que pensa, e sentir é mais real que pensar, sentir é mais natural que pensar. Nascemos com o coração que sente, mas o pensamento foi cultivado; é dado pela sociedade.

Minha nudez não faz parte do pensar, nem quero saber o que pensam a meu respeito, só quero sentir o ar, o sol, a água e a terra. Os conceitos são puramente mentais, vou dispensá-los. Sim, sou nudista, algum problema?

Evandro Telles
29/10/13



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

VIVISSECÇÃO: CIÊNCIA OU BARBÁRIE

VIVISSECÇÃO: CIÊNCIA OU BARBÁRIE
Experimentos realizados em animais vivos transformam laboratórios em câmaras de torturas. Tudo em nome da Ciência.
A palavra complicada que usamos no título deste artigo justifica uma explicação inicial. Em sentido restrito, vivissecção é a prática (cuja origem é atribuída ao médico romano de origem grega Cláudio Galeno, no século I DC) de se dissecar animais vivos para estudar sua anatomia e fisiologia. Em sentido amplo, o termo define todos os experimentos realizados em animais vivos.
Tanto em um caso quanto no outro, porém, os resultados são sempre os  mesmos: dor e sofrimento.  É isso o que acontece nas câmaras de torturas -  eufemisticamente chamadas de laboratórios - de universidades públicas e privadas, indústrias (sobretudo de produtos farmacêuticos e cosméticos) e institutos de pesquisa.
Nelas, animais vivos - mamíferos, em especial - são submetidos a um rol extenso de experiências, cujo espaço restrito deste artigo não nos permite detalhar. Citemos algumas: a amputação de membros sadios para a implantação de próteses produzidas com novos materiais supostamente úteis aos seres humanos, a injeção de substâncias tóxicas no corpo ou a aplicação de produtos químicos na pele para a verificação dos seus efeitos e, ainda, a fixação de instrumentos em órgãos internos (como o crânio) para o monitoramento das suas atividades diante de choques elétricos ou de novas drogas.
Tudo em nome da Ciência - e, de forma velada, do dinheiro. Porque, não se iluda, este é o pano de fundo do debate. Ainda que fosse justificável a necessidade de se torturar e mutilar animais em nome da Ciência, o que é discutível, não o é fazê-lo em nome do dinheiro. Por isso, a vivissecção é, sem dúvida, a maior das questões da Bioética.
Não por acaso. Não há estatísticas oficiais sobre o número de animais mortos neste gênero de barbárie moderna, mas os PhDs alemães Milly Schar-Manzoli e Max Heller, no livro Holocausto, estimam que a máquina de dinheiro que move esta fábrica de horrores chega a consumir  extraordinários quatrocentos milhões de animais em todo o mundo, anualmente.
Não se diga, seguindo a cartilha maquiavélica, que os fins justificam os meios. No livro Alternativas ao uso de animais vivos na Educação, o biólogo paulista Sérgio Greif relaciona uma longa lista de alternativas eficazes à vivissecção, que esvaziam os discursos de que este tipo de prática é necessária: modelos e simuladores mecânicos ou de computador, realidade virtual, acompanhamento clínico em pacientes reais, auto-experimentação não-invasiva, estudo anatômico de animais mortos por causas naturais, além dos filmes e vídeos interativos. 
Apoiadas por cientistas, pesquisadores, políticos e até executivos de grandes empresas privadas, instituições sérias como a InterNiche (International Networtk of Individuals and Campaigns for a Humane Education) e a British Union for the Abolition of Vivisection (organização que existe desde o final do século 19) têm uma coleção de bem fundamentados argumentos contrários a este tipo de prática.
Provando que a preocupação com o tema não é delírio das organizações de defesa dos animais, a grande maioria das escolas de medicina dos EUA (maior berço científico do planeta) não usa animais. Entre elas, as consagradíssimas Harvard Medical School e Columbia University College of Physicians and Surgeons. Baseiam-se, entre outras coisas, em estudos que comprovam que 51,5% das drogas lançadas entre 1976 e 1985 ofereciam riscos aos seres humanos não previstos nos testes.
Já em Israel, a El Al (principal linha aérea do País) se recusa a transportar primatas para serem usados em experiências. Lá, a vivissecção é proibida em todas as instituições federais de ensino. O argumento que utilizam para justificar esta atitude, com o qual encerro este artigo, é uma primorosa lição de humanidade. “É mais importante ensinar aos alunos israelenses a compaixão pelos animais porque este sentimento certamente criará maior compaixão por seres humanos”.
Aurélio Munhoz no Twitter: http://twitter.com/aureliomunhoz

domingo, 20 de outubro de 2013

NATURISMO NA MÍDIA



Alguns dias atrás uma amiga me disse que estava no facebook e numa conversa com outra pessoa disse que era naturista/nudista. Poucos minutos depois o seu parceiro queria que ela se mostrasse sem as roupas. Isso tem sido frequentemente observado nos sites de relacionamentos, as pessoas pensam que o naturista/nudista tem que ficar se mostrando como se estivesse numa vitrine.

Tinha me comprometido a falar sobre esse assunto no II Encontro Norte Nordeste de Naturismo, mas esqueci de fazer essa abordagem, também ninguém perguntou coisa alguma, acho que todos sabem muito sobre Naturismo/Nudismo, só eu tenho dúvidas.

Tenho dúvidas, por exemplo, dos motivos que levam naturistas aceitarem que determinados programas venha fazer matérias que não possuem competência alguma para falar sobre Naturismo. O Pânico na TV é um desses programas que coloca a mulher numa posição como se fosse um objeto descartável ou para uso. O corpo é destacado como se nada tivesse de valor, a mulher é desmoralizada, usada e no fundo do vídeo sempre um assobio “fiu fiu”. Perde a mulher, perde o Naturismo.

Algumas pessoas justificam tal permissividade em função de audiência. Visibilidade equivocada não é melhor do que a verdade que defendemos. Não precisamos de quantidade de praticantes e sim de pessoas que desejam crescer e de vivenciar um estilo de vida que prega antes de tudo o respeito por nossas diferenças. Estive em quatro programas na televisão no mês de fevereiro e todos eles só realizaram perguntas inteligentes e nenhuma gracinha.

Na véspera de realizar uma palestra para alunos da Faculdade de Psicologia, o que poderá ser dito para aqueles que assistiram uma matéria sobre Naturismo no Pânico? Que é legal, oba-oba, cervejada, tudo é festa. Entrevista mesmo não houve nenhuma, só perguntas com duplo sentido, puxando pelo lado malicioso. Bom, talvez os psicólogos poderão ajudar a resolver essa disfunção mental.

Certa vez comentei com um amigo sobre um assunto que eu iria escrever, ele me disse que se fizesse a abordagem pretendida que iria perder o conceito até então conquistado. Foi aí que me dei conta de que nunca escrevi coisa alguma para agradar ninguém, nem mesmo as mídias naturistas.

Mas tudo isso tem uma explicação que muitos ainda não conseguem entender, chamamos de “Consciência” (o amigo Augusto diz que quase sempre cito essa palavra em meus textos). Dentro dos estudos da consciência temos quatro fases de identificações: 1) Identificação com o corpo, quando as pessoas mais pensam em sexo e comida. Podemos, sem medo de errar, afirmar um percentual significativo de pessoas vive nessa identificação, em torno de 70%; 2) Identificação com a Mente, nesse grupo encontramos os filósofos, matemáticos, cientistas. Uma mente lógica, dividida, racional. Chega a ser um subproduto do primeiro item; 3) Identificação com o coração, podemos aqui elencar os poetas, músicos, mais sensível, mais amoroso e por último 4) O Transcendental,  aquele ser iluminado, todos os aspectos negativos da vida foram sucumbidos, é o próprio ser, aquele que se encontrou dentro de um contexto mais amplo.

Onde a maioria das pessoas se encontra? Está explicado o motivo de termos poucos praticantes do Naturismo, a busca dessa massa de pessoas está voltada para o corpo, no mais baixo nível da consciência. A prática do Naturismo consciente é para ultrapassar essa identificação, mas se permitirmos uma mídia cujos valores estão ainda enraizados nas aparências, em nada acrescenta ao movimento naturista, muito ao contrário, somente atesta que somos um bando de depravados.

Os naturistas não devem ser contraditórios do que realmente acreditam, a escolha do tipo de programa e do entrevistador deve ser realizada com bastante cautela, de forma tal que não coloque em dúvida o Naturismo, que não sejamos motivos de piadas e chacotas. Definitivamente, não precisamos disso.



Evandro Telles
20/10/13



sábado, 19 de outubro de 2013

O DEBATE SOBRE A MORALIDADE DA EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL: O QUE É RELEVANTE E O QUE NÃO É


Por Luciano Carlos Cunha
A maioria das discussões em torno dos experimentos feitos com animais não humanos tem girado em torno da necessidade ou não necessidade dos mesmos. De um lado, os que usam os animais defendem ser necessário o uso em pelo menos alguns experimentos. Do outro, alguns ativistas respondem apontando os riscos de se extrapolar dados de uma espécie para outra e outros problemas técnicos com a experimentação. Eu acredito que o debate se centrar nessa questão é um resultado infeliz, pois dá a entender que ambos os lados do debate assumem a seguinte premissa: “se um determinado meio é necessário para se chegar a um determinado fim, então esse fim e esse meio estão automaticamente justificados”.
Quando percebemos esse ponto, vemos que essa premissa é altamente questionável. Vamos supor que o objetivo de pelo menos alguns experimentos seja o de curar doenças. Esse fim é justificável, até louvável. Mas, segue daí que qualquer meio para se chegar a um fim louvável é automaticamente justificado, desde que seja necessário para se chegar nesse fim? A maioria de nós, incluindo os que experimentam em animais, não concordaria com essa conclusão. Imagine que, para se curar uma determinada doença fosse necessário assassinar e torturar algumas crianças. A maioria de nós defenderia que é um erro fazer isso, e que os cientistas deveriam buscar descobrir outro meio de procurar curar a doença. Assim sendo, a discussão não deveria girar em torno da necessidade ou não da experimentação animal, já que podem existir razões que mostrem que, mesmo sendo necessária em alguns casos, ainda assim ela não se justifica (discuto melhor essas razões abaixo).
O que precisa ficar claro é que o ponto central do debate não deve ser o que está sendo até agora. A questão central é que os animais que são utilizados o são porque não pertencem à espécie humana. Quando se desfavorece alguém por não pertencer a determinada espécie, o nome disso é especismo (da mesma maneira que desfavorecer alguém que não pertence a determinada raça chama-se racismo). Então, o ponto central deveria ser perguntar por que se acredita que é correto fazer experimentos em animais não humanos (ou usar para outros fins, como comer), mas não é correto usar seres humanos. Para explorar melhor esse ponto, vou sugerir um experimento mental: suponha que ficasse provado que experimentar em humanos é tecnicamente mais eficaz e, além disso, necessário para se curar uma determinada doença. O que poderia explicar o erro de se usar humanos nesse caso e que ao mesmo tempo explique que não é um erro utilizar animais não humanos?
O que poderia justificar o especismo? Para a maioria, a diferença parece óbvia: “como alguém não poderia perceber a diferença moralmente relevante entre humanos e animais de outras espécies?”. Mas, e que diferença seria essa? Não pode ser o mero fato de uns serem humanos e outros não, porque isso não explica nada. Não pode ser o fato de humanos serem mais racionais do que outros animais, porque nem todos os humanos são racionais (recém nascidos, crianças muito pequenas, idosos senis, portadores de determinadas doenças mentais, comatosos: existem animais não humanos muito mais racionais do que estes humanos). Aliás, em se tratando de humanos não racionais, ao invés de os utilizarmos como comida ou modelo de testes damos atenção primordial aos seus cuidados, já que são mais vulneráveis e mais dependentes de nós. Então, apontar que os não humanos são menos racionais só mostraria que os cuidados sobre eles deveriam ser muito maiores; tão grandes quanto aquele que geralmente temos para com um bebê.
E quanto a apontar que na natureza o mais forte subjuga o mais fraco; os animais comem uns aos outros; e cada animal favorece aos da sua própria espécie? Teria poder para justificar o especismo? Não, porque isso seria assumir a seguinte premissa: “se algo é natural, então é justificado”. O problema com essa premissa aparece logo que perguntamos o que se quer dizer com o termo “natural”. No sentido que é empregue nesse argumento, quer dizer que é algo que acontece sem intervenção deliberada humana, ou que segue os processos evolutivos inconscientes. Mas, então, por que isso seria relevante moralmente? No que apontar que algo simplesmente acontece sem intervenção humana ou planejamento racional seria relevante para nos dar razões para agir dessa ou daquela forma? Não parece contraditório buscar razões para agir justamente em processos que, desde Darwin, sabemos que não são processos racionais? É curioso que alguns cientistas, muitos dos quais aceitam a teoria da evolução, baseiem-se nessa premissa muito problemática. Uma coisa é “como as coisas são?”; outra é “como as coisas deveriam ser?”. Dizer que algo é da maneira que é não dá razão alguma para concluirmos que, então, esse algo é automaticamente bom ou correto.
A falha em todas essas tentativas de se justificar o especismo está em não se perceber que a principal razão para se respeitar seres humanos não se dá por estes serem humanos, nem por serem racionais, e nem porque na natureza cada animal privilegia os da sua espécie, e sim, simplesmente porque seres humanos são capazes de sofrer e desfrutar. Essa razão muito simples é o que melhor explica o dever de se respeitar alguém. Alguém precisa de respeito porque valoriza estar em um determinado estado e não em outro e é vulnerável. Para isso, é preciso ser senciente (capaz de sofrer e desfrutar). Todo ser senciente prefere desfrutar de experiências mentais positivas ao invés de negativas. Todos nós reconhecemos que sofrer e/ou ser privado de desfrutar de algo bom, é ser prejudicado. Ser capaz de sofrimento/desfrute é uma razão suficiente para se respeitar alguém, pois então esse alguém pode ser prejudicado ou beneficiado de acordo com o que decidirmos. Para haver possibilidade de alguém ser prejudicado, basta ser senciente, independentemente de espécie, de grau de racionalidade e do que acontece na natureza. A mesma razão que explica por que devemos respeitar humanos explica ao mesmo tempo porque devemos respeitar qualquer ser capaz de sentir, independentemente de espécie.
Outro resultado infeliz do debate é que por vezes centra-se a discussão em se saber se houve ou não maus tratos durante o experimento. O que isso parece indicar é que, então, ambos os lados do debate estão a aceitar a seguinte premissa: “se não houver maus tratos durante um experimento, então, ele é automaticamente justificado”. Essa premissa só faria sentido se sofrer fosse a única maneira de se prejudicar alguém. Mas, existe pelo menos outra maneira bem conhecida de se prejudicar alguém: assassiná-lo, quando ainda lhe resta algo de bom a ser desfrutado.
Alguém poderia objetar, dizendo que é isso que explica a diferença entre humanos e não humanos quanto ao erro em matar: os primeiros fazem planos para o futuro e entendem o que é a morte; os segundos não. Essa objeção tem dois erros. O primeiro erro, menor, é que existem humanos (bebês, idosos senis, portadores de determinadas doenças mentais, etc.) que também não entendem o que é a morte e também não fazem planos para o futuro. O segundo erro, maior, é confundir “ser prejudicado” com “saber que será prejudicado”. A morte, quando é um dano, é um dano não devido ao que ela faz estar presente, mas devido ao que ela priva. Ela priva alguém de desfrutar sensações boas no futuro. E isso é assim independentemente desse alguém saber o que é a morte, ter feito planos para o futuro, ou sofrer antes da morte. Assim sendo, todos os seres com possibilidade de desfrutarem algo de bom no futuro são danados ao morrer. Então, não é tão importante discutir se houveram ou não maus-tratos durante os experimentos, haja vista que existem fortes razões para se objetar aos experimentos mesmo quando não existem maus-tratos, já que os animais, de qualquer maneira, são mortos depois.
Por fim, um comentário sobre outro argumento muito freqüente nos debates. Os defensores da experimentação acusam os defensores dos animais de hipocrisia por se beneficiarem da exploração animal (usarem remédios, comer comida de origem animal, andar de ônibus, por exemplo). Disso, eles concluem que, então, a exploração animal está justificada. O problema é que essa conclusão não seguiria da premissa nem que a premissa fosse verdadeira. É verdade, a acusação de hipocrisia poderia ser verdadeira em alguns casos (por exemplo, parar de comer comida de origem animal é algo que se pode fazer facilmente). Contudo, outras coisas são muito mais difíceis de fazer, haja vista que absolutamente quase tudo em nossa sociedade é feito à base de exploração animal.
Mas, a questão não é essa. Mesmo que todas as acusações de hipocrisia fossem verdadeiras, será que segue daí que, então, a prática que o suposto “hipócrita” está a criticar tem boas razões a seu favor? Obviamente que não. Uma questão é “qual o caráter do interlocutor?”, outra é “qual a coisa certa a se fazer?”. Imagine, por exemplo, que o tratamento de água fosse feito a base de trabalho infantil. Ninguém pode deixar de tomar água. Será que segue daí que então não existem razões contra o trabalho infantil e que alguém deve ser proibido de objetá-lo? E, supondo que o trabalho infantil fosse utilizado em um produto não necessário, como café. Supondo que quem estivesse a protestar tomasse café e que a acusação de hipocrisia fizesse sentido. Segue daí que não existem boas razões para se abolir o trabalho infantil? Obviamente que não. O interlocutor, no nosso exemplo fictício, apesar de hipócrita, estaria a fazer a coisa certa ao criticar a exploração. Acusar os defensores dos animais de hipocrisia com vistas a concluir que a experimentação animal se justifica é nada mais do que um caso da famosa falácia ad hominem. Aliás, parece que o fato de quase tudo em nossa sociedade ser feito à base de exploração animal é mais uma razão para aboli-la, pois então mostra que sofrimento e morte estão sendo impostos a um número gigante de seres sencientes.
Essas questões deveriam ser o ponto central do debate. As razões acima são as razões mais básicas para se rejeitar o especismo, e, com ele todas as práticas exploratórias sobre os não humanos, incluindo a experimentação animal. É a partir daí que o debate deveria se desenvolver. E é por não se estar discutindo os argumentos principais e se estar a perder tempo com argumentos que já assumem de antemão que o especismo está justificado que nosso entendimento das questões éticas que envolvem animais não humanos está, infelizmente, em um nível dos mais rasos.



Luciano Carlos Cunha - lucianoshred@gmail.com
Mestre em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), licenciado em Educação Artística com habilitação em música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), colaborador da revista eletrônica Pensata Animal, colunista do site ANDA e autor do blog Desafiando o Especismo.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

NATURISMO NO TERRITÓRIO DAS EMOÇÕES





Após o II ENNN Encontro Norte Nordeste de Naturismo que durou quatro dias, tendo como lema “Espiritualidade, Solidariedade e Compromisso”; e em torno disso muitas atividades que considero importantes de serem mencionadas nesse texto.

Necessário esclarecer que “Espiritualidade” não tem nada a ver com religião, crenças, Deus, Santos ou Profetas. Espiritualidade é um caso de amor maior do indivíduo em relação ao cosmos. Você toca na folha estará ao mesmo tempo tocando nas estrelas, é a universalidade sem fragmentos, é sentir o pulsar da vida em todas as direções, não há norte nem sul, não há fronteiras. No dia em que a espiritualidade tocar o homem não poderão existir guerras, violência, afrontas, porque o outro será um espelho que reflete ele mesmo.
 
Diariamente tínhamos um momento para reflexão dos elementos da natureza, fogo, terra, água e ar. No primeiro dia, uma fogueira foi acesa e a Rayssa fez abertura do evento de forma brilhante, louvando o “fogo” que em nosso corpo representa o coração, símbolo da paixão, do amor e da energia que nos faz movimentar. Todos os participantes mentalizaram o que deveria colocar para o universo, seus pedidos, anseios, desejos e provavelmente orações. Mas tudo de forma silenciosa em respeito às crenças individuais, que é um dos preceitos do Naturismo.

No segundo dia “a terra” com representação artística do amigo Jorge Bandeira, que deitou o seu corpo na terra molhada pelas chuvas que não dava trégua, mas foi bom que tenha sido assim em reconhecimento da nossa adaptação à natureza, não ao contrário. Antes da sua exposição, Jorge pede que tenhamos em mente as crianças ali presentes e o amigo Miguel que luta contra o câncer e sempre esteve em defesa do Naturismo na praia de Massarandupió. Deita numa posição fetal e os participantes colocam um punhado de terra sobre o seu corpo, e nada mais foi dito. Percebem a significância? É o encontro da vida e da morte, é a vida se manifestando da terra, vivida por uma criança que hoje luta e o seu final, coberta de onde surgiu. É o encontro dos opostos, é a vida que morre ou surge? É seu início ou fim? É a igualdade de todos os seres que vivem, é o direito de viver com dignidade. Não contive tamanha emoção e meus olhos lacrimejaram.

No terceiro dia, “a água” foi o terceiro elemento, exaltada a sua importância para a manifestação da vida, circulante em todo nosso organismo, além de nascermos por meio desse elemento. Todos passaram por uma fonte de água e ali se banharam. À noite foi o lançamento do livro “Naturismo – Um Corpo Não Fragmentado” em que tive a oportunidade de realizar uma breve apresentação, sem muita delonga por ver o cansaço de muitos que já tinham ido à praia, passado o dia em reuniões. Percebi a inconveniência de realizar uma palestra com muitos detalhes. O ponto alto do evento mais uma vez partiu da encenação do Jorge Bandeira de um texto escrito por Plínio Marcos (1935-1999), mostrando o índio transformado num mendigo, sem vida em seu olhar, sem alma e esperança. Culpa de quem? Dos que os tiraram das suas terras, mas também dos que calaram por medo, dos que nada fizeram para impedir a ganância, dos nossos antepassados e de cada um de nós que ficamos sentados, acomodados vendo passivamente o extermínio do homem nu, tirado à força de seu habitat, da terra e do seu lar. Culpa de quem? Mais uma vez pergunto. Por incrível que pareça encontro um dedo apontado em minha própria direção. Isso é consciência, Naturismo e Natureza andam de mãos dadas e antes de tudo, é um compromisso com a vida. (Edson Medeiros).
    
No quarto dia, encerramento com reverência ao “Ar”. A respiração, o reconhecimento que o corpo tem a sua própria sabedoria, o ar inspirado tem que ser solto, ninguém poderá reter como se um objeto fosse porque se for retido cessa a vida, tem que ser equilibrado, nem mais nem menos. Lembra-nos que a vida é uma fluidez e não estática, um constante dar e receber, que não somos donos de coisa alguma, só estamos usufruindo. Naturalmente surge a “gratidão”, que não é uma atitude e sim um sentimento. Não é que se tenha que agradecer a alguém, é andar no peito com a gratidão por todas as coisas e por todos que encontramos nessa passagem pela vida afora.
Algumas pessoas chegaram quando estávamos finalizando essa atividade ainda perguntaram: “Perdi alguma coisa?”
Sim, perdeu tudo, quem não participou perdeu muito.

Obrigado, as lições foram muitas. Aprendi que o Naturismo é também território das emoções.



Evandro Telles
14/10/13