sábado, 19 de outubro de 2013

O DEBATE SOBRE A MORALIDADE DA EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL: O QUE É RELEVANTE E O QUE NÃO É


Por Luciano Carlos Cunha
A maioria das discussões em torno dos experimentos feitos com animais não humanos tem girado em torno da necessidade ou não necessidade dos mesmos. De um lado, os que usam os animais defendem ser necessário o uso em pelo menos alguns experimentos. Do outro, alguns ativistas respondem apontando os riscos de se extrapolar dados de uma espécie para outra e outros problemas técnicos com a experimentação. Eu acredito que o debate se centrar nessa questão é um resultado infeliz, pois dá a entender que ambos os lados do debate assumem a seguinte premissa: “se um determinado meio é necessário para se chegar a um determinado fim, então esse fim e esse meio estão automaticamente justificados”.
Quando percebemos esse ponto, vemos que essa premissa é altamente questionável. Vamos supor que o objetivo de pelo menos alguns experimentos seja o de curar doenças. Esse fim é justificável, até louvável. Mas, segue daí que qualquer meio para se chegar a um fim louvável é automaticamente justificado, desde que seja necessário para se chegar nesse fim? A maioria de nós, incluindo os que experimentam em animais, não concordaria com essa conclusão. Imagine que, para se curar uma determinada doença fosse necessário assassinar e torturar algumas crianças. A maioria de nós defenderia que é um erro fazer isso, e que os cientistas deveriam buscar descobrir outro meio de procurar curar a doença. Assim sendo, a discussão não deveria girar em torno da necessidade ou não da experimentação animal, já que podem existir razões que mostrem que, mesmo sendo necessária em alguns casos, ainda assim ela não se justifica (discuto melhor essas razões abaixo).
O que precisa ficar claro é que o ponto central do debate não deve ser o que está sendo até agora. A questão central é que os animais que são utilizados o são porque não pertencem à espécie humana. Quando se desfavorece alguém por não pertencer a determinada espécie, o nome disso é especismo (da mesma maneira que desfavorecer alguém que não pertence a determinada raça chama-se racismo). Então, o ponto central deveria ser perguntar por que se acredita que é correto fazer experimentos em animais não humanos (ou usar para outros fins, como comer), mas não é correto usar seres humanos. Para explorar melhor esse ponto, vou sugerir um experimento mental: suponha que ficasse provado que experimentar em humanos é tecnicamente mais eficaz e, além disso, necessário para se curar uma determinada doença. O que poderia explicar o erro de se usar humanos nesse caso e que ao mesmo tempo explique que não é um erro utilizar animais não humanos?
O que poderia justificar o especismo? Para a maioria, a diferença parece óbvia: “como alguém não poderia perceber a diferença moralmente relevante entre humanos e animais de outras espécies?”. Mas, e que diferença seria essa? Não pode ser o mero fato de uns serem humanos e outros não, porque isso não explica nada. Não pode ser o fato de humanos serem mais racionais do que outros animais, porque nem todos os humanos são racionais (recém nascidos, crianças muito pequenas, idosos senis, portadores de determinadas doenças mentais, comatosos: existem animais não humanos muito mais racionais do que estes humanos). Aliás, em se tratando de humanos não racionais, ao invés de os utilizarmos como comida ou modelo de testes damos atenção primordial aos seus cuidados, já que são mais vulneráveis e mais dependentes de nós. Então, apontar que os não humanos são menos racionais só mostraria que os cuidados sobre eles deveriam ser muito maiores; tão grandes quanto aquele que geralmente temos para com um bebê.
E quanto a apontar que na natureza o mais forte subjuga o mais fraco; os animais comem uns aos outros; e cada animal favorece aos da sua própria espécie? Teria poder para justificar o especismo? Não, porque isso seria assumir a seguinte premissa: “se algo é natural, então é justificado”. O problema com essa premissa aparece logo que perguntamos o que se quer dizer com o termo “natural”. No sentido que é empregue nesse argumento, quer dizer que é algo que acontece sem intervenção deliberada humana, ou que segue os processos evolutivos inconscientes. Mas, então, por que isso seria relevante moralmente? No que apontar que algo simplesmente acontece sem intervenção humana ou planejamento racional seria relevante para nos dar razões para agir dessa ou daquela forma? Não parece contraditório buscar razões para agir justamente em processos que, desde Darwin, sabemos que não são processos racionais? É curioso que alguns cientistas, muitos dos quais aceitam a teoria da evolução, baseiem-se nessa premissa muito problemática. Uma coisa é “como as coisas são?”; outra é “como as coisas deveriam ser?”. Dizer que algo é da maneira que é não dá razão alguma para concluirmos que, então, esse algo é automaticamente bom ou correto.
A falha em todas essas tentativas de se justificar o especismo está em não se perceber que a principal razão para se respeitar seres humanos não se dá por estes serem humanos, nem por serem racionais, e nem porque na natureza cada animal privilegia os da sua espécie, e sim, simplesmente porque seres humanos são capazes de sofrer e desfrutar. Essa razão muito simples é o que melhor explica o dever de se respeitar alguém. Alguém precisa de respeito porque valoriza estar em um determinado estado e não em outro e é vulnerável. Para isso, é preciso ser senciente (capaz de sofrer e desfrutar). Todo ser senciente prefere desfrutar de experiências mentais positivas ao invés de negativas. Todos nós reconhecemos que sofrer e/ou ser privado de desfrutar de algo bom, é ser prejudicado. Ser capaz de sofrimento/desfrute é uma razão suficiente para se respeitar alguém, pois então esse alguém pode ser prejudicado ou beneficiado de acordo com o que decidirmos. Para haver possibilidade de alguém ser prejudicado, basta ser senciente, independentemente de espécie, de grau de racionalidade e do que acontece na natureza. A mesma razão que explica por que devemos respeitar humanos explica ao mesmo tempo porque devemos respeitar qualquer ser capaz de sentir, independentemente de espécie.
Outro resultado infeliz do debate é que por vezes centra-se a discussão em se saber se houve ou não maus tratos durante o experimento. O que isso parece indicar é que, então, ambos os lados do debate estão a aceitar a seguinte premissa: “se não houver maus tratos durante um experimento, então, ele é automaticamente justificado”. Essa premissa só faria sentido se sofrer fosse a única maneira de se prejudicar alguém. Mas, existe pelo menos outra maneira bem conhecida de se prejudicar alguém: assassiná-lo, quando ainda lhe resta algo de bom a ser desfrutado.
Alguém poderia objetar, dizendo que é isso que explica a diferença entre humanos e não humanos quanto ao erro em matar: os primeiros fazem planos para o futuro e entendem o que é a morte; os segundos não. Essa objeção tem dois erros. O primeiro erro, menor, é que existem humanos (bebês, idosos senis, portadores de determinadas doenças mentais, etc.) que também não entendem o que é a morte e também não fazem planos para o futuro. O segundo erro, maior, é confundir “ser prejudicado” com “saber que será prejudicado”. A morte, quando é um dano, é um dano não devido ao que ela faz estar presente, mas devido ao que ela priva. Ela priva alguém de desfrutar sensações boas no futuro. E isso é assim independentemente desse alguém saber o que é a morte, ter feito planos para o futuro, ou sofrer antes da morte. Assim sendo, todos os seres com possibilidade de desfrutarem algo de bom no futuro são danados ao morrer. Então, não é tão importante discutir se houveram ou não maus-tratos durante os experimentos, haja vista que existem fortes razões para se objetar aos experimentos mesmo quando não existem maus-tratos, já que os animais, de qualquer maneira, são mortos depois.
Por fim, um comentário sobre outro argumento muito freqüente nos debates. Os defensores da experimentação acusam os defensores dos animais de hipocrisia por se beneficiarem da exploração animal (usarem remédios, comer comida de origem animal, andar de ônibus, por exemplo). Disso, eles concluem que, então, a exploração animal está justificada. O problema é que essa conclusão não seguiria da premissa nem que a premissa fosse verdadeira. É verdade, a acusação de hipocrisia poderia ser verdadeira em alguns casos (por exemplo, parar de comer comida de origem animal é algo que se pode fazer facilmente). Contudo, outras coisas são muito mais difíceis de fazer, haja vista que absolutamente quase tudo em nossa sociedade é feito à base de exploração animal.
Mas, a questão não é essa. Mesmo que todas as acusações de hipocrisia fossem verdadeiras, será que segue daí que, então, a prática que o suposto “hipócrita” está a criticar tem boas razões a seu favor? Obviamente que não. Uma questão é “qual o caráter do interlocutor?”, outra é “qual a coisa certa a se fazer?”. Imagine, por exemplo, que o tratamento de água fosse feito a base de trabalho infantil. Ninguém pode deixar de tomar água. Será que segue daí que então não existem razões contra o trabalho infantil e que alguém deve ser proibido de objetá-lo? E, supondo que o trabalho infantil fosse utilizado em um produto não necessário, como café. Supondo que quem estivesse a protestar tomasse café e que a acusação de hipocrisia fizesse sentido. Segue daí que não existem boas razões para se abolir o trabalho infantil? Obviamente que não. O interlocutor, no nosso exemplo fictício, apesar de hipócrita, estaria a fazer a coisa certa ao criticar a exploração. Acusar os defensores dos animais de hipocrisia com vistas a concluir que a experimentação animal se justifica é nada mais do que um caso da famosa falácia ad hominem. Aliás, parece que o fato de quase tudo em nossa sociedade ser feito à base de exploração animal é mais uma razão para aboli-la, pois então mostra que sofrimento e morte estão sendo impostos a um número gigante de seres sencientes.
Essas questões deveriam ser o ponto central do debate. As razões acima são as razões mais básicas para se rejeitar o especismo, e, com ele todas as práticas exploratórias sobre os não humanos, incluindo a experimentação animal. É a partir daí que o debate deveria se desenvolver. E é por não se estar discutindo os argumentos principais e se estar a perder tempo com argumentos que já assumem de antemão que o especismo está justificado que nosso entendimento das questões éticas que envolvem animais não humanos está, infelizmente, em um nível dos mais rasos.



Luciano Carlos Cunha - lucianoshred@gmail.com
Mestre em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), licenciado em Educação Artística com habilitação em música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), colaborador da revista eletrônica Pensata Animal, colunista do site ANDA e autor do blog Desafiando o Especismo.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

NATURISMO NO TERRITÓRIO DAS EMOÇÕES





Após o II ENNN Encontro Norte Nordeste de Naturismo que durou quatro dias, tendo como lema “Espiritualidade, Solidariedade e Compromisso”; e em torno disso muitas atividades que considero importantes de serem mencionadas nesse texto.

Necessário esclarecer que “Espiritualidade” não tem nada a ver com religião, crenças, Deus, Santos ou Profetas. Espiritualidade é um caso de amor maior do indivíduo em relação ao cosmos. Você toca na folha estará ao mesmo tempo tocando nas estrelas, é a universalidade sem fragmentos, é sentir o pulsar da vida em todas as direções, não há norte nem sul, não há fronteiras. No dia em que a espiritualidade tocar o homem não poderão existir guerras, violência, afrontas, porque o outro será um espelho que reflete ele mesmo.
 
Diariamente tínhamos um momento para reflexão dos elementos da natureza, fogo, terra, água e ar. No primeiro dia, uma fogueira foi acesa e a Rayssa fez abertura do evento de forma brilhante, louvando o “fogo” que em nosso corpo representa o coração, símbolo da paixão, do amor e da energia que nos faz movimentar. Todos os participantes mentalizaram o que deveria colocar para o universo, seus pedidos, anseios, desejos e provavelmente orações. Mas tudo de forma silenciosa em respeito às crenças individuais, que é um dos preceitos do Naturismo.

No segundo dia “a terra” com representação artística do amigo Jorge Bandeira, que deitou o seu corpo na terra molhada pelas chuvas que não dava trégua, mas foi bom que tenha sido assim em reconhecimento da nossa adaptação à natureza, não ao contrário. Antes da sua exposição, Jorge pede que tenhamos em mente as crianças ali presentes e o amigo Miguel que luta contra o câncer e sempre esteve em defesa do Naturismo na praia de Massarandupió. Deita numa posição fetal e os participantes colocam um punhado de terra sobre o seu corpo, e nada mais foi dito. Percebem a significância? É o encontro da vida e da morte, é a vida se manifestando da terra, vivida por uma criança que hoje luta e o seu final, coberta de onde surgiu. É o encontro dos opostos, é a vida que morre ou surge? É seu início ou fim? É a igualdade de todos os seres que vivem, é o direito de viver com dignidade. Não contive tamanha emoção e meus olhos lacrimejaram.

No terceiro dia, “a água” foi o terceiro elemento, exaltada a sua importância para a manifestação da vida, circulante em todo nosso organismo, além de nascermos por meio desse elemento. Todos passaram por uma fonte de água e ali se banharam. À noite foi o lançamento do livro “Naturismo – Um Corpo Não Fragmentado” em que tive a oportunidade de realizar uma breve apresentação, sem muita delonga por ver o cansaço de muitos que já tinham ido à praia, passado o dia em reuniões. Percebi a inconveniência de realizar uma palestra com muitos detalhes. O ponto alto do evento mais uma vez partiu da encenação do Jorge Bandeira de um texto escrito por Plínio Marcos (1935-1999), mostrando o índio transformado num mendigo, sem vida em seu olhar, sem alma e esperança. Culpa de quem? Dos que os tiraram das suas terras, mas também dos que calaram por medo, dos que nada fizeram para impedir a ganância, dos nossos antepassados e de cada um de nós que ficamos sentados, acomodados vendo passivamente o extermínio do homem nu, tirado à força de seu habitat, da terra e do seu lar. Culpa de quem? Mais uma vez pergunto. Por incrível que pareça encontro um dedo apontado em minha própria direção. Isso é consciência, Naturismo e Natureza andam de mãos dadas e antes de tudo, é um compromisso com a vida. (Edson Medeiros).
    
No quarto dia, encerramento com reverência ao “Ar”. A respiração, o reconhecimento que o corpo tem a sua própria sabedoria, o ar inspirado tem que ser solto, ninguém poderá reter como se um objeto fosse porque se for retido cessa a vida, tem que ser equilibrado, nem mais nem menos. Lembra-nos que a vida é uma fluidez e não estática, um constante dar e receber, que não somos donos de coisa alguma, só estamos usufruindo. Naturalmente surge a “gratidão”, que não é uma atitude e sim um sentimento. Não é que se tenha que agradecer a alguém, é andar no peito com a gratidão por todas as coisas e por todos que encontramos nessa passagem pela vida afora.
Algumas pessoas chegaram quando estávamos finalizando essa atividade ainda perguntaram: “Perdi alguma coisa?”
Sim, perdeu tudo, quem não participou perdeu muito.

Obrigado, as lições foram muitas. Aprendi que o Naturismo é também território das emoções.



Evandro Telles
14/10/13

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

NATURISMO - UM COMPROMISSO COM A VIDA

 



O título desse texto foi um destaque no artigo “Naturismo e Novas Vivências” do amigo Edson Medeiros e hoje, 04/10/13, é comemorado o “Dia Mundial dos Animais”. Neste dia, a vida animal em todas as suas formas é celebrada, e eventos especiais são planejados em locais por todo o mundo. Instituído em 1931 pelo Congresso Internacional de Partidários do Movimento em Defesa  da Natureza, data escolhida em homenagem a São Francisco de Assis considerado protetor dos animais.

Questiono: o que tem sido comemorado? Durante os últimos 500 anos extinguiram-se por completo 844 espécies animais e de acordo com as estimativas da Aliança Internacional de Proteção de Animais, cerca de um quarto de todos os mamíferos estão à beira da extinção.

O Naturismo, enquanto uma filosofia de vida que busca a integração do homem de forma harmônica com a natureza, universalista, pacífica, mostra como é lento o processo de conscientização. De um lado, uma sociedade que mercantilizou o corpo que deixa as pessoas obsessivas ou frustradas, de outro, não são muitos os praticantes que desejam o compromisso de ficar esclarecendo àqueles que nem se interessam em conhecer o tipo de transformação que esse movimento é capaz de realizar na vida do indivíduo. O resultado tem sido desalentador, principalmente para quem escreve, sente-se isolado, uma voz na multidão.

Às vésperas do II Encontro Norte Nordeste de Naturismo tendo como pilares temáticos a “Espiritualidade, Solidariedade e Compromisso”, mostra que o Naturismo tem evoluído para algo mais do que a simples nudez corporal. A abordagem desses assuntos é significativa e ao mesmo tempo provocativa. Significativa porque a Espiritualidade implica ir além das crenças religiosas, a bem da verdade nada tem a ver com religião e sim como podemos SENTIR A VIDA, não é racional e sim existencial.

O homem quando se despe predispõe-se a mudanças mais fundamentais e significativas em sua vida. Tendo recuperado este espaço de liberdade que é o seu próprio corpo, tendo superado este imenso tabu que é a nudez, um horizonte todo se alarga, propiciando reflexões mais amplas e aprofundadas sobre o existir, sobre o viver. Antigos valores, arcaicas crenças, códigos, posturas, comportamentos condicionados pela velha moral, começam a ser repensados, redefinidos, questionados”. (Edson Medeiros)
 
O Naturismo assim torna-se uma técnica para que possamos ver a vida de uma forma diferente e mais humana. Os prazeres obtidos nos encontros não se tornam objetivos e sim conseqüências da conquista da liberdade e de se sentir uno com toda a natureza. Somente pelo título do livro “Todos os Animais São Nossos Irmãos” de Marcel Benedeti já nos sensibiliza que temos que repensar sobre o direito à vida.

O Congresso Espanhol aprovou o texto do Projeto de Lei que declara a tourada como patrimônio cultural. Mais uma vez perde os protetores dos animais e o Naturismo também enfraquecido pela desvalorização da vida que tanto defendemos. Até quando o ser humano suportará a sua agressividade e violência?




Evandro Telles
04/10/13


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A BELEZA OCULTA NO NATURISMO



“EIS O MEU SEGREDO. É MUITO SIMPLES: SÓ SE VÊ BEM COM O CORAÇÃO. O ESSENCIAL É INVISÍVEL AOS OLHOS”
 (Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe)


A famosa frase de Vinícius de Moraes “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”, que até hoje causa controvérsias e críticas, pode ter lá suas razões bem fundamentadas, desde que possamos definir e esclarecer o que é beleza.

No campo da filosofia não há um consenso sobre a questão do que é beleza, os filósofos nunca concordam entre si a respeito de um possível conceito do belo. E mesmo entre os que acha ser possível concebê-lo, o modo de elaboração conceitual é muito divergente. (Evando Nascimento, formado em Letras e Filosofia, pós-doutorado na Universidade Livre de Berlim).

As indústrias da moda e cosmética aproveitaram o gancho do nosso famoso poeta para fazerem suas propagandas que dizem a verdade, mas nem toda a verdade. É passado para o público algo incontestável, no entanto, mais uma vez o sistema faz das pessoas umas marionetes que podem ser manipuladas. O resultado disso se chama “frustração”. Por quê? A frustração é a sombra da expectativa. Quanto mais se cria expectativa de algo não realizado, maior é a frustração do indivíduo. É o mesmo que viver no futuro, ele nunca chega, é uma ilusão.

Se não bastasse essa indefinição, existe ainda o sentido muito pessoal. A arte que vejo como bela pode não ser para o outro. Só isso já seria o suficiente para percebermos que vivemos num mundo totalmente ilusório e a própria ciência atesta isso. A nossa sociedade criou a ilusão do corpo perfeito e as pessoas se sentem ofendidas quando são colocadas como velhas. Alguns países orientais a velhice é sinônimo de sabedoria e belo, se as julgarem novas é que será uma ofensa.

Fica muito nítido que quando os valores são trocados distorções acontecem. O Laércio Júlio da Silva em seu artigo “A Beleza que Ameaça a Juventude”, publicado no Jornal “Diário da Manhã” em 01/08/2009 já chamava atenção sobre esse assunto dizendo: “O fato é que não podemos deixar crescer uma geração apegada a valores fúteis vitimada por uma paranóia que não é inerente à da vontade de viver do jovem”.

 A natureza adora se ocultar, esse é o jogo. A natureza é como as raízes das árvores, ela fica na profundidade do solo – o mais essencial está oculto. Nunca considere que a árvore é o mais essencial. Ela é apenas a periferia de onde vêm as flores, folhas e frutos. A árvore verdadeira existe no subsolo, no escuro, se cortar as raízes tudo desaparece. Caminhe em direção ao ser, ao centro, à própria base. Procure sempre as raízes, e não se deixe enganar pelas folhagens – Se uma pessoa é bonita na superfície, você se apaixona; você se apaixonou pela folhagem. Mas a pessoa pode não ser bonita por dentro, ela pode ser absolutamente feia – e você caiu na armadilha (Osho – A Harmonia oculta).

Algumas pessoas entendem que o Naturismo é tirar as roupas, não é nada disso, nem mesmo uma negação da sexualidade. É, na verdade, um modo sutil de expor o que está oculto, de expor a Divindade existente em cada um de nós. “Deus está se ocultando na flor. Se você simplesmente perceber a flor, errará o alvo”.

A beleza do Naturismo está oculta, a natureza não é exibicionista. Isso deve ser bem compreendido para que possamos desenvolver a percepção e assim encontrar o real sentido de que a beleza é realmente fundamental porque é algo que parte do nosso íntimo. Só podemos ver o mundo bonito quando nosso interior consegue ver a beleza de toda a existência, que não fala e diz tudo, não julga nem condena, simplesmente mostra, e é assim que vivemos o sentido do Naturismo, só pode ser visto com o coração.



 Evandro Telles
05/09/11

“A MANEIRA QUE ESCOLHEMOS VER O MUNDO CRIA O MUNDO QUE NÓS VEMOS.”  (BARRY NEIL KAUFMAN).





quarta-feira, 7 de agosto de 2013

NATURISMO E AS GUERRAS - parte II


”Os homens nunca praticam o mal de modo tão completo e animado como quando o fazem a partir de convicção religiosa”, escreveu o filósofo Blaise Pascal. De 1500 Até os dias atuais a violência e as atrocidades cometidas pelo homem contra o seu semelhante por falta de tolerância religiosa é de tamanha envergadura que fica difícil acreditar na possibilidade do ser humano ter sido capaz de realizar tanta agressividade.

Se alguém pensa que isso é coisa do passado está muito enganado; a guerra na Síria adquire cada vez mais traços de guerra religiosa, ou seja, ela está se transformando num confronto entre sunitas e xiitas.
(http://portuguese.ruvr.ru/2013_07_30/Tropas-de-Assad-tomaram-a-cidade-de-Homs-6835/). Na Irlanda do Norte protestantes e católicos ainda se hostilizam; na Índia hindus e sikhs se gladiam; na Armênia cristãos e muçulmanos se agridem; no Sri Lanka budistas atacam cristãos e hindus. Marcelo da Luz então questiona e analisa em seu livro “Onde a Religião Termina?” dada a onipresença da violência religiosa, é esta apenas uma conseqüência acidental das manifestações de credulidade ou é a própria religião, na sua conjuntura estrutural, o gatilho armado à deflagração da violência? É a religião vítima da manipulação de outros agentes alheios aos seus princípios, ou está nela plantada a raiz da violência?

James A. Haught em “Perseguições Religiosas” faz um relato da história do fanatismo e dos crimes religiosos sumarizados nos últimos nove séculos que nos deixa perplexos de como tem sido a evolução da nossa espécie.

Eckhart Tolle em “O Despertar de Uma Nova Consciência” afirma que as religiões, numa grande medida, firmaram-se como forças divisoras em vez de unificadoras, e que a nova espiritualidade, a transformação da consciência, está surgindo em grande parte fora das estruturas das religiões institucionalizadas.

Qual é o verdadeiro problema? A questão é que os conflitos surgem quando um grupo de pessoas assume ser detentora da verdade e todos os outros estão errados e assim como são contra a Divindade devem ser perseguidos e aniquilados. Como vivemos no mundo da dualidade sempre existirá alguém com pensamentos opostos ao seu. O que o homem do século XXI precisa na atualidade é de TOLERÂNCIA E RESPEITO.

Surge o Naturismo no início do século XX como uma força propulsora que mais cedo ou tarde irá o indivíduo refletir sobre a sua própria natureza e irá concluir a inexistência da verdade absoluta. Toda a natureza é integrada, fragmentada na mente do homem que tem dificuldades de perceber a totalidade. O dia é a continuidade da noite, a morte é a continuidade da vida, nada pode ser separado, tudo é integrado. Não pode haver separatismos dentro do movimento naturista, nem mesmo manifestações políticas e religiosas em respeito à individualidade das pessoas e a universalidade da natureza.

No entanto, a prática do Naturismo consciente requer desprendimento, tanto corporal como mental, o que tem tornado difícil para o homem moderno que criou para sua natureza problemas de diversas ordens, poucos percebem a poesia do corpo e muitos o sexo. Não só isso, também tem dificuldades de aceitação da sua própria natureza, não se sentem bem com ela. Toda a natureza é nua e não há dificuldade alguma, só o homem que cria embaraços, desestrutura e provoca desequilíbrios. Algo deu errado na sua construção! Buda tem razão quando diz: Viva em alegria, em paz, mesmo entre os perturbados.

O biólogo Arthur Golgo Lucas escreve com muita propriedade seus argumentos contrários à nudez em manifestações políticas, e ele tem razão, a nudez naturista não é para convencer a sociedade de nada, na verdade é para proporcionar transformações em si mesmo. As mudanças sociais devem ocorrer a partir do próprio indivíduo.  

Osho no seu livro “Alegria – A Felicidade que Vem de Dentro” cita que o problema não é a guerra, e as marchas de protesto não irão ajudar. O problema é a agressão interior nos indivíduos. As pessoas não estão à vontade consigo mesmas, daí precisar haver a guerra; do contrário, essas pessoas enlouquecerão. A cada década uma grande guerra é necessária para descarregar a humanidade de sua neurose.

Por que acham que defendo publicamente o Naturismo sem impor a minha nudez? Porque ainda tenho a utopia que o ser humano ainda possa viver em paz.


Evandro Telles
07/08/13


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

LANÇAMENTO LIVRO EM SÃO PAULO








CONVITE
   A FBRN - Federação Brasileira de Naturismo e os grupos
NIP- Naturistas do Interior Paulista 
 e
 SPNAT - Naturistas da Grande São Paulo
convidam para o lançamento do terceiro livro do escritor Evandro Telles,
NATURISMO - UM CORPO NÃO FRAGMENTADO 
09/08 - Campinas - NIP - 18:00 hs - Unicamp - Pça do Ciclo Básico
10/08 - São Paulo - SPNAT - 14:00 hs no parque Villa Lobos



terça-feira, 30 de julho de 2013

NATURISMO E AS GUERRAS - parte I




No dia 21/07/13 foi divulgada na Folha de São Paulo a matéria de Ricardo Senra com o título “naturistas brigam entre si por direito à nudez pública” e junto com as fotos, logo abaixo do texto outro título “Guerra dos Pelados”. Esse assunto merece algumas reflexões que faço nas linhas a seguir.

Em primeiro lugar o repórter é praticamente recém formado pela Universidade do Rio de Janeiro em 2010 e não conhece nada de Naturismo, muito menos o que é uma nudez nas guerras. É bom saber diferenciar o que é uma guerra do que é uma diferença de opiniões. A nudez na guerra é vergonhosa, é triste, lamentavelmente destituída de qualquer valor, a foto acima mostra isso e muito mais se quisermos explorar esse assunto. A nudez natural possui outro significado e ela está exposta em contexto muito diferente, ela é harmonia, é pacífica, é saudável do ponto de vista médico e psicológico (tenho artigos em minhas mãos que provam isso).

Coloco a imagem “Social e Natural” para explicar algumas diferenças dos dois mundos:

NATURAL        SOCIAL

Às vezes sai alguém do mundo social e entra no mundo natural para realizar pesquisas, estudos acadêmicos como foi o caso de Luiz Fernando Rojo com a tese de doutorado “Vivendo Nu Paraíso” na área de Antropologia. Mas também existe aquele que sai do mundo natural para tentar mostrar ao outro lado que a simples nudez humana nada tem de agressiva, é uma percepção do corpo de forma diferente. Alguma coisa errada? Não. A questão é que um não sabe que outro existe, não consegue conceber a naturalidade do corpo. É nesse ponto que entra os conflitos e as divergências.

Tenho divulgado o Naturismo junto aos intelectuais da cidade onde moro nos encontros semanais, aproveito e faço convites para que venham conhecer o grupo o qual freqüento; nada será exigido nem mesmo que tirem as suas roupas. Nunca ninguém apareceu, minto, só um jovem. Mas é uma forma de abordagem, outros podem querer de modo diferente. Até Roberto Carlos com a sua música “Além do Horizonte” também quer uma vida livre quando diz:
“...bronzear o corpo todo sem censura, gozar a liberdade de uma vida sem frescura”. Só que ele quer além do horizonte e muitos querem viver o agora. Não vejo rupturas, nem motivos para conflitos. Têm pessoas que gostam de briguinhas de fundo de quintal e arranjam problemas onde não existe.

Um grupo quer ter o direito à nudez no parque, na cachoeira enfim, em lugares propícios ao banho de sol e sem molestar ninguém. Na Alemanha é assim e desconheço quaisquer conflitos de ordem moral ou mesmo com a polícia. A bem da verdade porque é cultural. Na reportagem citada a sexóloga e obstetra Carol Albrogini diz: “essas pessoas são exibicionistas. Os freqüentadores do parque não são obrigados a ver isso. Tem criança!” Como eu disse, é cultural, essa pessoa desconhece estudo realizado Robin Lewis e Lois Janda em 1988, estudo de Marilyn Story com 274 crianças de 3 a 5 anos e o resultado resumidamente foi:
- A nudez é benéfica para a família e a sociedade;
- Acabam se tornando adultos à vontade com seus corpos e com a sua sexualidade;
- Auto estima elevada;
- Menos obsessivos.

Uma pessoa nesse nível deveria ter mais cuidado ao falar de quem quer liberdade que são exibicionistas. Liberdade é algo que nascemos com ela e depois nos foi tirada fundamentada nos conceitos e preconceitos sociais. Os naturistas são pessoas que se apóiam nos valores de respeito e harmonia e tenta mostrar, às vezes com comportamentos equivocados, que a nudez tem mais dignidade do que muitos comportadinhos.

Particularmente não tenho interesse em ir para praça e tirar as roupas, nem que fosse permitido. No entanto, a nudez de qualquer pessoa não me atingiria em nada. Temos muito que aprender para conquistar maiores espaços, prefiro pelo lado cultural que falta até mesmo para indivíduos que fizeram faculdade, imaginem num país onde ainda o povo vai para ruas reivindicar educação.

A reportagem pode ter atingido o seu objetivo mercadológico, mas muito infeliz no seu conteúdo de mostrar a verdadeira face do Naturismo.

Evandro Telles
30/07/13