quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A BELEZA OCULTA NO NATURISMO



“EIS O MEU SEGREDO. É MUITO SIMPLES: SÓ SE VÊ BEM COM O CORAÇÃO. O ESSENCIAL É INVISÍVEL AOS OLHOS”
 (Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe)


A famosa frase de Vinícius de Moraes “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”, que até hoje causa controvérsias e críticas, pode ter lá suas razões bem fundamentadas, desde que possamos definir e esclarecer o que é beleza.

No campo da filosofia não há um consenso sobre a questão do que é beleza, os filósofos nunca concordam entre si a respeito de um possível conceito do belo. E mesmo entre os que acha ser possível concebê-lo, o modo de elaboração conceitual é muito divergente. (Evando Nascimento, formado em Letras e Filosofia, pós-doutorado na Universidade Livre de Berlim).

As indústrias da moda e cosmética aproveitaram o gancho do nosso famoso poeta para fazerem suas propagandas que dizem a verdade, mas nem toda a verdade. É passado para o público algo incontestável, no entanto, mais uma vez o sistema faz das pessoas umas marionetes que podem ser manipuladas. O resultado disso se chama “frustração”. Por quê? A frustração é a sombra da expectativa. Quanto mais se cria expectativa de algo não realizado, maior é a frustração do indivíduo. É o mesmo que viver no futuro, ele nunca chega, é uma ilusão.

Se não bastasse essa indefinição, existe ainda o sentido muito pessoal. A arte que vejo como bela pode não ser para o outro. Só isso já seria o suficiente para percebermos que vivemos num mundo totalmente ilusório e a própria ciência atesta isso. A nossa sociedade criou a ilusão do corpo perfeito e as pessoas se sentem ofendidas quando são colocadas como velhas. Alguns países orientais a velhice é sinônimo de sabedoria e belo, se as julgarem novas é que será uma ofensa.

Fica muito nítido que quando os valores são trocados distorções acontecem. O Laércio Júlio da Silva em seu artigo “A Beleza que Ameaça a Juventude”, publicado no Jornal “Diário da Manhã” em 01/08/2009 já chamava atenção sobre esse assunto dizendo: “O fato é que não podemos deixar crescer uma geração apegada a valores fúteis vitimada por uma paranóia que não é inerente à da vontade de viver do jovem”.

 A natureza adora se ocultar, esse é o jogo. A natureza é como as raízes das árvores, ela fica na profundidade do solo – o mais essencial está oculto. Nunca considere que a árvore é o mais essencial. Ela é apenas a periferia de onde vêm as flores, folhas e frutos. A árvore verdadeira existe no subsolo, no escuro, se cortar as raízes tudo desaparece. Caminhe em direção ao ser, ao centro, à própria base. Procure sempre as raízes, e não se deixe enganar pelas folhagens – Se uma pessoa é bonita na superfície, você se apaixona; você se apaixonou pela folhagem. Mas a pessoa pode não ser bonita por dentro, ela pode ser absolutamente feia – e você caiu na armadilha (Osho – A Harmonia oculta).

Algumas pessoas entendem que o Naturismo é tirar as roupas, não é nada disso, nem mesmo uma negação da sexualidade. É, na verdade, um modo sutil de expor o que está oculto, de expor a Divindade existente em cada um de nós. “Deus está se ocultando na flor. Se você simplesmente perceber a flor, errará o alvo”.

A beleza do Naturismo está oculta, a natureza não é exibicionista. Isso deve ser bem compreendido para que possamos desenvolver a percepção e assim encontrar o real sentido de que a beleza é realmente fundamental porque é algo que parte do nosso íntimo. Só podemos ver o mundo bonito quando nosso interior consegue ver a beleza de toda a existência, que não fala e diz tudo, não julga nem condena, simplesmente mostra, e é assim que vivemos o sentido do Naturismo, só pode ser visto com o coração.



 Evandro Telles
05/09/11

“A MANEIRA QUE ESCOLHEMOS VER O MUNDO CRIA O MUNDO QUE NÓS VEMOS.”  (BARRY NEIL KAUFMAN).





quarta-feira, 7 de agosto de 2013

NATURISMO E AS GUERRAS - parte II


”Os homens nunca praticam o mal de modo tão completo e animado como quando o fazem a partir de convicção religiosa”, escreveu o filósofo Blaise Pascal. De 1500 Até os dias atuais a violência e as atrocidades cometidas pelo homem contra o seu semelhante por falta de tolerância religiosa é de tamanha envergadura que fica difícil acreditar na possibilidade do ser humano ter sido capaz de realizar tanta agressividade.

Se alguém pensa que isso é coisa do passado está muito enganado; a guerra na Síria adquire cada vez mais traços de guerra religiosa, ou seja, ela está se transformando num confronto entre sunitas e xiitas.
(http://portuguese.ruvr.ru/2013_07_30/Tropas-de-Assad-tomaram-a-cidade-de-Homs-6835/). Na Irlanda do Norte protestantes e católicos ainda se hostilizam; na Índia hindus e sikhs se gladiam; na Armênia cristãos e muçulmanos se agridem; no Sri Lanka budistas atacam cristãos e hindus. Marcelo da Luz então questiona e analisa em seu livro “Onde a Religião Termina?” dada a onipresença da violência religiosa, é esta apenas uma conseqüência acidental das manifestações de credulidade ou é a própria religião, na sua conjuntura estrutural, o gatilho armado à deflagração da violência? É a religião vítima da manipulação de outros agentes alheios aos seus princípios, ou está nela plantada a raiz da violência?

James A. Haught em “Perseguições Religiosas” faz um relato da história do fanatismo e dos crimes religiosos sumarizados nos últimos nove séculos que nos deixa perplexos de como tem sido a evolução da nossa espécie.

Eckhart Tolle em “O Despertar de Uma Nova Consciência” afirma que as religiões, numa grande medida, firmaram-se como forças divisoras em vez de unificadoras, e que a nova espiritualidade, a transformação da consciência, está surgindo em grande parte fora das estruturas das religiões institucionalizadas.

Qual é o verdadeiro problema? A questão é que os conflitos surgem quando um grupo de pessoas assume ser detentora da verdade e todos os outros estão errados e assim como são contra a Divindade devem ser perseguidos e aniquilados. Como vivemos no mundo da dualidade sempre existirá alguém com pensamentos opostos ao seu. O que o homem do século XXI precisa na atualidade é de TOLERÂNCIA E RESPEITO.

Surge o Naturismo no início do século XX como uma força propulsora que mais cedo ou tarde irá o indivíduo refletir sobre a sua própria natureza e irá concluir a inexistência da verdade absoluta. Toda a natureza é integrada, fragmentada na mente do homem que tem dificuldades de perceber a totalidade. O dia é a continuidade da noite, a morte é a continuidade da vida, nada pode ser separado, tudo é integrado. Não pode haver separatismos dentro do movimento naturista, nem mesmo manifestações políticas e religiosas em respeito à individualidade das pessoas e a universalidade da natureza.

No entanto, a prática do Naturismo consciente requer desprendimento, tanto corporal como mental, o que tem tornado difícil para o homem moderno que criou para sua natureza problemas de diversas ordens, poucos percebem a poesia do corpo e muitos o sexo. Não só isso, também tem dificuldades de aceitação da sua própria natureza, não se sentem bem com ela. Toda a natureza é nua e não há dificuldade alguma, só o homem que cria embaraços, desestrutura e provoca desequilíbrios. Algo deu errado na sua construção! Buda tem razão quando diz: Viva em alegria, em paz, mesmo entre os perturbados.

O biólogo Arthur Golgo Lucas escreve com muita propriedade seus argumentos contrários à nudez em manifestações políticas, e ele tem razão, a nudez naturista não é para convencer a sociedade de nada, na verdade é para proporcionar transformações em si mesmo. As mudanças sociais devem ocorrer a partir do próprio indivíduo.  

Osho no seu livro “Alegria – A Felicidade que Vem de Dentro” cita que o problema não é a guerra, e as marchas de protesto não irão ajudar. O problema é a agressão interior nos indivíduos. As pessoas não estão à vontade consigo mesmas, daí precisar haver a guerra; do contrário, essas pessoas enlouquecerão. A cada década uma grande guerra é necessária para descarregar a humanidade de sua neurose.

Por que acham que defendo publicamente o Naturismo sem impor a minha nudez? Porque ainda tenho a utopia que o ser humano ainda possa viver em paz.


Evandro Telles
07/08/13


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

LANÇAMENTO LIVRO EM SÃO PAULO








CONVITE
   A FBRN - Federação Brasileira de Naturismo e os grupos
NIP- Naturistas do Interior Paulista 
 e
 SPNAT - Naturistas da Grande São Paulo
convidam para o lançamento do terceiro livro do escritor Evandro Telles,
NATURISMO - UM CORPO NÃO FRAGMENTADO 
09/08 - Campinas - NIP - 18:00 hs - Unicamp - Pça do Ciclo Básico
10/08 - São Paulo - SPNAT - 14:00 hs no parque Villa Lobos



terça-feira, 30 de julho de 2013

NATURISMO E AS GUERRAS - parte I




No dia 21/07/13 foi divulgada na Folha de São Paulo a matéria de Ricardo Senra com o título “naturistas brigam entre si por direito à nudez pública” e junto com as fotos, logo abaixo do texto outro título “Guerra dos Pelados”. Esse assunto merece algumas reflexões que faço nas linhas a seguir.

Em primeiro lugar o repórter é praticamente recém formado pela Universidade do Rio de Janeiro em 2010 e não conhece nada de Naturismo, muito menos o que é uma nudez nas guerras. É bom saber diferenciar o que é uma guerra do que é uma diferença de opiniões. A nudez na guerra é vergonhosa, é triste, lamentavelmente destituída de qualquer valor, a foto acima mostra isso e muito mais se quisermos explorar esse assunto. A nudez natural possui outro significado e ela está exposta em contexto muito diferente, ela é harmonia, é pacífica, é saudável do ponto de vista médico e psicológico (tenho artigos em minhas mãos que provam isso).

Coloco a imagem “Social e Natural” para explicar algumas diferenças dos dois mundos:

NATURAL        SOCIAL

Às vezes sai alguém do mundo social e entra no mundo natural para realizar pesquisas, estudos acadêmicos como foi o caso de Luiz Fernando Rojo com a tese de doutorado “Vivendo Nu Paraíso” na área de Antropologia. Mas também existe aquele que sai do mundo natural para tentar mostrar ao outro lado que a simples nudez humana nada tem de agressiva, é uma percepção do corpo de forma diferente. Alguma coisa errada? Não. A questão é que um não sabe que outro existe, não consegue conceber a naturalidade do corpo. É nesse ponto que entra os conflitos e as divergências.

Tenho divulgado o Naturismo junto aos intelectuais da cidade onde moro nos encontros semanais, aproveito e faço convites para que venham conhecer o grupo o qual freqüento; nada será exigido nem mesmo que tirem as suas roupas. Nunca ninguém apareceu, minto, só um jovem. Mas é uma forma de abordagem, outros podem querer de modo diferente. Até Roberto Carlos com a sua música “Além do Horizonte” também quer uma vida livre quando diz:
“...bronzear o corpo todo sem censura, gozar a liberdade de uma vida sem frescura”. Só que ele quer além do horizonte e muitos querem viver o agora. Não vejo rupturas, nem motivos para conflitos. Têm pessoas que gostam de briguinhas de fundo de quintal e arranjam problemas onde não existe.

Um grupo quer ter o direito à nudez no parque, na cachoeira enfim, em lugares propícios ao banho de sol e sem molestar ninguém. Na Alemanha é assim e desconheço quaisquer conflitos de ordem moral ou mesmo com a polícia. A bem da verdade porque é cultural. Na reportagem citada a sexóloga e obstetra Carol Albrogini diz: “essas pessoas são exibicionistas. Os freqüentadores do parque não são obrigados a ver isso. Tem criança!” Como eu disse, é cultural, essa pessoa desconhece estudo realizado Robin Lewis e Lois Janda em 1988, estudo de Marilyn Story com 274 crianças de 3 a 5 anos e o resultado resumidamente foi:
- A nudez é benéfica para a família e a sociedade;
- Acabam se tornando adultos à vontade com seus corpos e com a sua sexualidade;
- Auto estima elevada;
- Menos obsessivos.

Uma pessoa nesse nível deveria ter mais cuidado ao falar de quem quer liberdade que são exibicionistas. Liberdade é algo que nascemos com ela e depois nos foi tirada fundamentada nos conceitos e preconceitos sociais. Os naturistas são pessoas que se apóiam nos valores de respeito e harmonia e tenta mostrar, às vezes com comportamentos equivocados, que a nudez tem mais dignidade do que muitos comportadinhos.

Particularmente não tenho interesse em ir para praça e tirar as roupas, nem que fosse permitido. No entanto, a nudez de qualquer pessoa não me atingiria em nada. Temos muito que aprender para conquistar maiores espaços, prefiro pelo lado cultural que falta até mesmo para indivíduos que fizeram faculdade, imaginem num país onde ainda o povo vai para ruas reivindicar educação.

A reportagem pode ter atingido o seu objetivo mercadológico, mas muito infeliz no seu conteúdo de mostrar a verdadeira face do Naturismo.

Evandro Telles
30/07/13

domingo, 28 de julho de 2013

MUTIRÃO NO PARQUE ESTADUAL PAULO VINHAS


GNC - GRUPO NATURISMO CAPIXABA
Espírito Santo
Facebook: Grupo Naturismo Capixaba

Mutirão de limpeza do PARQUE ESTADUAL PAULO CÉSAR VINHA
GUARAPARI-ES



O GNC - Grupo Naturismo Capixaba participou neste dia, 21/07/2013, do mutirão de limpeza do Parque Estadual Paulo Cesar Vinha. A ação teve início às 08:00 com os ativistas sendo recebidos com um delicioso café da manhã preparado com muito carinho pela ONG SGR - Sociedade Gaya Religare, criada pelo Matheus da Costa após a morte de seu amigo, o biólogo Paulo Cesar Vinha, assassinado por denunciar e tentar coibir extrações clandestinas de areia que causavam desequilíbrios ambientais. 




Após as apresentações e o lanche, o presidente Evandro Telles concedeu entrevistas e ouvimos as recomendações de trabalho de limpeza.  Todos portavam boné, protetor, lanches e líquidos.  Muitas fotos já registravam os fatos do dia.
Divididos os grupos de limpeza: para o lado direito do parque dirigiram-se os escoteiros e familías com filhos ficando responsáveis por 3 km de areia de praia. Para o lado esquerdo: os associados e convidados do GNC uniram-se aos estudantes universitários de diversas faculdades de Guarapari- ES, sendo todos levados de ônibus até o local onde iniciariam a limpeza de 5 km de praia com término na sede do parque.



A área de preservação do parque compreende 8 km de praia e está muito conservada, com vegetação preservada por diversas ações que identificam e mapeiam as necessidades ambientais. Ao longo de todo o trajeto foram recolhidos os detritos encontrados, desde garrafas plásticas, latas, tampinhas, sacolas plásticas, pedaços de pranchas de surf, cordas, potes, baldes, vidros e outros, enchendo inúmeras sacolas plásticas que eram levadas de quadriciclos até a base do parque. Porém, os quadriciclos também ajudaram a transportar alguns participantes que já estavam cansados da longa caminhada num dia de muito sol e intenso calor.
Terminamos nossas participações por volta das 13:00 horas, quando uma parte das inúmeras sacolas com os lixos já estavam sendo amontoadas no parque.



O GNC iniciou entendimentos para identificar um trecho do Parque com possibilidade de uso para encontros naturistas somente nos fins de semana. Fomos convidados para irmos de escuna conhecer as próximas áreas que terão ações de limpeza: as belas Três Ilhas e Três Praias. Convite aceito, com as datas a serem divulgas brevemente.

GNC - GRUPO NATURISMO CAPIXABA
Facebook: Grupo Naturismo Capixaba


segunda-feira, 15 de julho de 2013

NATURISMO TAMBÉM É CULTURA



Num pequeno diálogo:
- Sabe o que é Naturismo? Não?
- Já ouviu falar sobre aquelas pessoas que ficam sem roupas nas praias?
- Ah! Sim agora sei.

Essa é a ideia que a grande maioria das pessoas pensa que sabe o que é Naturismo, não tem a mínima noção do que representa esse movimento no mundo nem das implicações sociais da sua proposta com a nudez em grupo.
Adolf Koch, professor alemão de educação física, por volta do ano de 1900, inicia seus alunos nos desportos ao ar livre usando a nudez e obtém resultados expressivos na saúde, aspecto físico e até na alegria de viver. O alemão Heinrich Ungewitter publica o livro “Die Nacktheit (A Nudez), juntando-se ao movimento e dando-lhe consistência filosófica.
É ali na Alemanha o berço do Naturismo moderno, também o berço da sua decadência. Quando a ordem natural foi invertida colocando a “superioridade racial” e esquecendo os princípios de igualdade e fraternidade que o Naturismo representa, os campos de nudistas foram substituídos por campos de concentração, onde a nudez não mais tem a dignidade que deveria ser preservada.
Podemos, sem medo de errar afirmar: onde não existe paz e harmonia o Naturismo não sobrevive e aparentemente o ser humano prefere assim mesmo “lutar pela paz”, o que na minha perfeita ignorância e falta de inteligência ainda não consegui entender essa expressão.
Somente após a 2ª Guerra Mundial que o movimento nudista/naturista surge na França com mais intensidade e no 3º Congresso Internacional em Montalivet o Naturismo/Nudismo é definido como “Um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática da nudez social com intenção encorajar o autorrespeito, o respeito pelo próximo e o cuidado com o meio-ambiente”.
Para delírio de alguns, penso que eles tremem nas suas bases psicológicas quando se pronuncia a palavra “natureza”, porque não significa tão somente as plantas, as matas, os rios e os animais, mas também o corpo humano inserido dentro desse contexto, num processo de igualdade e liberdade. Assim, as implicações sociais são muito significativas, cada leitor desse texto pode fazer as suas próprias reflexões e conclusões.
Só poderá haver a harmonia com a natureza quando há aceitação de si mesmo. Por esse motivo o Naturismo abraça a todos sem distinção de cor, nacionalidade, orientação sexual, opções políticas, crenças e gêneros. É um movimento unificador e pacífico porque entende que a universalidade do corpo não pode ser segregada em partes indecentes e decentes, isso é moralismo.
O historiador Viegas Fernandes da Costa em seu artigo “Sobre a Nudez Social” questiona essas inversões de valores que transcrevo a seguir: “Ao iniciar estas breves reflexões a respeito da minha experiência com a nudez social, ocorre-me à lembrança de uma matéria da revista Veja no final da década de 1990, que tratava da guerra civil na Libéria. Chamou-me especial atenção uma fotografia que exibia o cadáver de um homem nu que havia sido linchado pelos guerrilheiros e abandonado à rua. Podia-se ver todo o corpo, suas feridas, a expressão de dor na face inerte e as lanhuras nos braços e pernas. Sobre o pênis, entretanto, uma espécie de tarja. Fiquei me perguntando o que seria mais obsceno: se a guerra civil e toda sorte de dor e destruição que esta provoca, onde cadáveres humanos são abandonados insepultos em meio à população que desesperadamente tenta sobreviver; ou se a exposição de um pênis aos olhos de leitores pudicos que poderiam se escandalizar, dando uma conotação sexual doentia a uma parte de um corpo humano barbaramente torturado e morto. Encaramos com naturalidade a guerra, o genocídio, a desestruturação social e a tortura, mas a nudez que nos cobre desde nosso nascimento é desnaturalizada ao ponto de um pênis supostamente chocar mais que a própria barbárie da guerra. Há aqui, certamente, uma inversão de valores sobre a qual devemos nos questionar e incomodar”.
Marcos Tavares, autor do livro “Gemagem”, o que mais me incentivou a escrever para o Caderno “Pensar” de “A Gazeta”, que até hoje não foi publicado e por esse motivo faço a sua divulgação, responde a indagação: Pode haver poetas sem livros? Pode. Só não pode haver poetas sem a lua. Da mesma forma não pode haver naturistas sem a natureza porque é integrado que se entrega; é o não-julgamento que se há o compromisso maior com a vida como referiu o biólogo Paulo Pereira em seu livro “Sem Pedir Julgamentos - conforme a natureza” publicado pela Livre Expressão em 2011.
Como Coordenador do Centro de Estudos Naturistas (CENA) e Membro do Conselho Consultivo da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN), tenho em minhas mãos diversos trabalhos acadêmicos, livros e artigos voltados para o estudo do Naturismo. Um campo enorme para pesquisas ainda não exploradas por causa de preconceitos e tabus em relação ao corpo.
Dr. John Veltheim, desenvolveu uma abordagem alternativa para a saúde que se tornou conhecida como o Sistema Body Talk que ensina em todo o mundo. No seu artigo “Nus por baixo da roupa” ele faz também referência como a sociedade cria no indivíduo a culpa por associar nudez com sexo e como isso provoca uma baixa auto-estima que vem se arrastando desde a infância e põe o dedo na ferida alegando e provando toda a farsa desenvolvida com o propósito de controlar os indivíduos. Só que tal comportamento é nocivo do ponto de vista psicológico e terapêutico.
O Sociólogo Edson Medeiros em seu artigo “Naturismo e Novas Vivências” diz: Ser Naturista é, antes de tudo, ter um compromisso com a vida e sob este aspecto o Naturismo é revolucionário e difere radicalmente da ótica da sociedade moderna. No mesmo texto cita ele Lowen em “Medo da Vida” (Summus Editorial), “O indivíduo de nosso tempo está comprometido com o sucesso, não em ser uma pessoa. Justificadamente pertence à ‘geração da ação’ cujo lema é: Faça mais, sinta menos...”.
Continua ele: Será destino do homem moderno ser neurótico, ter medo da vida? Sim, é a minha resposta, se por homem moderno definirmos o membro de uma cultura cujos valores predominantes sejam o poder e o progresso. Uma vez que são estes os valores que assinalam a cultura ocidental do século XX, decorre que toda pessoa criada na mesma é neurótica....Para entendermos a condição existencial do homem moderno e conhecermos o seu destino, devemos investigar as fontes de conflito de sua cultura. (Edson Medeiros)
Dora Vivácqua, a Luz Del Fuego, foi a precursora do Naturismo no Brasil, não há como falar de Naturismo sem citá-la. Uma mulher à frente do seu tempo e o biólogo Paulo Pereira diz que ela está fora da jurisdição desse mundo. Tem uma história a ser contada que poderá ser lida no seu livro “Verdade Nua” publicado em 1950; e também no livro de Cristina Agostinho “Luz Del Fuego” A Bailarina do Povo, publicado pela Editora Best Seller.
A Cristina ao escrever a história de Luz Del Fuego disse que esperava encontrar uma mulher comum, que ficava nua enrolada com as suas cobras fazendo apresentações teatrais. Muito pelo contrário, encontrou uma mulher culta, inteligente, instigante, com muita leitura e que a fez perder o sono muitas vezes. Incomum para a época em que a mulher não poderia nem participar de encontros literários em cafeterias onde reuniam diversos nomes importantes da literatura brasileira. Uma mulher que vale a pena ser lida.
Desde que fui convidado para participar do “Café com Letras”, que é um encontro de escritores capixabas organizado pelo Shopping Norte Sul, estou aprendendo a gostar de poesias. Observo que o verdadeiro entendimento não está nas palavras escritas e sim no coração de quem escreve. É preciso sentir o que o autor quer mostrar. Assim, também tenho ensinado aos poucos sobre Naturismo, até mesmo desconhecido por muitos dos nossos intelectuais uma vez que todas as citações realizadas nesse artigo não estão disponíveis nas livrarias.
Mostro a minha poesia: “A nudez humana é a identificação com a natureza, uma poesia sem palavras, um corpo integralmente rendido a uma energia que abraça a todos sem distinção. O corpo inspira artistas na pintura das suas telas, no artesanato, no romantismo, na poesia, na arte de esculpir na pedra ou na madeira, no teatro e na vida real mostrando o seu verdadeiro enigma e beleza quando apreciado como um todo. Quando fragmentado toda a visão se torna periférica, meia-verdade, enfraquecido numa mentira e totalmente desviado do seu valor intrínseco”.

Evandro Telles
Lançou os livros:
Verdades que as roupas escondem - 2009
Naturismo – Um Estilo de Vida Transformador - 2013
Naturismo – Um Corpo Não Fragmentado - 2013





quinta-feira, 15 de julho de 2010

LIBERDADE DE PENSAMENTO



Hoje, 14 de Julho, em todo o mundo comemora-se o dia da liberdade de pensamento, esta data foi escolhida pelos franceses como feriado nacional e data de celebração da Revolução Francesa em que houve a Queda de Bastilha. Era uma fortaleza situada em Paris que no século XV foi transformada numa prisão de Estado. Ali ficavam os intelectuais e políticos que discordavam ou representavam uma ameaça ao poder absolutista dos reis. É uma longa história, mas podemos dizer, com uma pequena margem de erro, que a intenção era o de prender o pensamento e entre os prisioneiros mais famosos podemos citar: Bassompierre, Foucquet, o homem da máscara de ferro, Duque de O’rleans, Voltaire, Latude entre outros.

A primeira vez em que foram definidos a liberdade e os direitos fundamentais do Homem foi por meio da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada pela Assembléia Nacional Constituinte da França em 26/08/1789 e também foi base da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela ONU em 10/12/1948. Nela são enumerados os direitos que todos os seres humanos possuem.

- “Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.

- “Todo homem tem direito à liberdade de opinião e expressão, este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.

Liberdade de pensamento é um tema muito atual e que merece alguma reflexão, afinal a liberdade é prerrogativa natural do ser humano. Se questionarmos as pessoas se são livres para pensar, acredito que um percentual bastante elevado dirão que sim, será que realmente são? Ou serão repetidores de opiniões do jornalista econômico ou político, dos líderes da igreja que freqüentam ou da sociedade que lhes inculcaram valores desde cedo que na realidade tiraram a sua liberdade?

No artigo “Temos liberdade de pensar?” de Carlos Bernardo González Pecotche, autor da Logosofia, diz “A liberdade de pensar em seu sentido íntimo significa a possibilidade de refletir e atuar a todo o momento com independência de preconceitos, de idéias alheias, do “que dirão”, etc., e, além disso, não fazer, pensar ou dizer o que não se deve.”

O Naturismo pode, efetivamente, colaborar com os indivíduos nesse sentido. O conhecimento e consciência da naturalidade do corpo humano, não abrem espaços para a promiscuidade nem para os preconceitos. Muitos ainda não se atrevem a freqüentarem uma área naturista com receio de suas reações corporais ou da sua estética. Naturismo realmente inicia na mente, é expressa por meio do corpo a liberdade mental..

Todo naturista tem uma grande responsabilidade social, afinal já sabemos pela história o resultado de querer prender o pensamento livre, responsável e ético. Podemos muito bem ensinar o caminho daqueles que ainda não conseguiram vencer seus medos, suas próprias fraquezas e de seus falsos valores sem violência, com paciência e compreensão. “Sem o suor do exemplo, os mais belos comentários perdem a legitimidade.” (Alan Kardec)

O escritor Mala Tahan, em seu livro “Lendas do Céu e da Terra” escreveu: “Nunca te arrependerás: De teres freado a língua, quando pretendias dizer o que não convinha. De teres pensado antes de falar. De teres perdoado aos que te fizeram mal. De teres suportado com paciência faltas alheias. De teres sido cortês e honesto com tudo e com todos”. Em vários países intelectuais encontram-se presos por terem ousado pensar livremente. Afinal, nunca como agora, pensar é uma questão de direito inalienável para cada ser humano. (www.emdianews.com.br)

Sejamos conscientes que teremos que incentivar a união, um diálogo pacífico e de respeito, porque só assim poderemos demonstrar o valor de ter tido conquistada a liberdade do pensamento.

Evandro Telles
14/07/10